Norman Mailer morreu ontem, de insuficiência renal, aos 84 anos. Os seus livros mais conhecidos são Os Nus e os Mortos, A Canção do Carrasco e o Evangelho Segundo o Filho, todos eles traduzidos em português. Polémico e directo, não deixou de ser tão militante na sua obra como em vida. Lutou contra a guerra do Vietname com a mesma intensidade com que denunciou os ataques feitos por feministas ao carácter misógino da obra que criou. A sua fama deveu-se mais a juízos de valor subjectivos do que a uma leitura objectiva dos romances. De uma maneira ou de outra, o seu nome era referido anualmente como possível prémio Nobel, mas o comité de Estocolmo decidiu que a Eternidade fizesse o julgamento dos seus méritos literários. Um dos pretendentes ao trono de great american novelist, pode-se dizer que apenas se aproximou, pela extensão e pelo fôlego literário, num pseudo-romance de espionagem, O Fantasma de Harlot (editado pela Asa), épico que acompanha, com um vigor estilístico assombroso, 40 anos da CIA, da sua formação aos anos 80, retratando simultaneamente a América da guerra fria através dos olhos de quem melhor percebe o que se passa, um espião americano que é colocado junto dos lugares onde se decide o destino do mundo: Berlim no pós-guerra, América do Sul nos anos 70. Partindo do particular para o universal (como o deve fazer qualquer bom romancista), Mailer constrói um mundo tão real e decisivo como afastado do olhar de quem vê apenas o resultado das decisões que são tomadas - a mesma técnica de O Nus e os Mortos, de resto, colocando o leitor no centro do torvelinho da 2ª Guerra Mundial, ao nível das trincheiras, da violência absoluta da batalha.domingo, 11 de novembro de 2007
Norman Mailer (1923-2007)
Norman Mailer morreu ontem, de insuficiência renal, aos 84 anos. Os seus livros mais conhecidos são Os Nus e os Mortos, A Canção do Carrasco e o Evangelho Segundo o Filho, todos eles traduzidos em português. Polémico e directo, não deixou de ser tão militante na sua obra como em vida. Lutou contra a guerra do Vietname com a mesma intensidade com que denunciou os ataques feitos por feministas ao carácter misógino da obra que criou. A sua fama deveu-se mais a juízos de valor subjectivos do que a uma leitura objectiva dos romances. De uma maneira ou de outra, o seu nome era referido anualmente como possível prémio Nobel, mas o comité de Estocolmo decidiu que a Eternidade fizesse o julgamento dos seus méritos literários. Um dos pretendentes ao trono de great american novelist, pode-se dizer que apenas se aproximou, pela extensão e pelo fôlego literário, num pseudo-romance de espionagem, O Fantasma de Harlot (editado pela Asa), épico que acompanha, com um vigor estilístico assombroso, 40 anos da CIA, da sua formação aos anos 80, retratando simultaneamente a América da guerra fria através dos olhos de quem melhor percebe o que se passa, um espião americano que é colocado junto dos lugares onde se decide o destino do mundo: Berlim no pós-guerra, América do Sul nos anos 70. Partindo do particular para o universal (como o deve fazer qualquer bom romancista), Mailer constrói um mundo tão real e decisivo como afastado do olhar de quem vê apenas o resultado das decisões que são tomadas - a mesma técnica de O Nus e os Mortos, de resto, colocando o leitor no centro do torvelinho da 2ª Guerra Mundial, ao nível das trincheiras, da violência absoluta da batalha.
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Sérgio Lavos
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segunda-feira, 5 de novembro de 2007
O Silêncio dos Livros
George Steiner é um pessimista. Imaginamos que não o seria aos vinte, nem aos trinta, por isso desculpamos-lhe a amargura; quem não chegou ainda a velho não sabe o que é olhar para a frente e não ver caminho a desbravar. A trágica natureza humana.Steiner tem um estilo de escrita reconhecível, no qual avulta a profunda erudição e a capacidade de criar ligações entre ideias e autores. A este conhecimento enciclopédico, Steiner alia um entusiasmo sempre disponível, incapaz de deixar de admirar intensamente as obras dos grandes génios nas artes e na ciência - e para ele, a ciência é o ramo que nunca se devia ter separado da filosofia (foi essa uma das principais ideias da conferência que deu há umas semanas na Gulbenkian). Usa os nomes dos seus génios pessoais como fétiches ou mnemónica para as suas linhas de pensamento - Homero, Platão, Aristóteles, Shakespeare, Milton, Mozart, Turner. É um classicista, certo, e desde sempre foi - o ensaio que o tornou conhecido, No Castelo do Barba Azul, é uma resposta ao texto de Eliot, Notas para a Definição de Cultura, modernista nos seus propósitos, quando não no conteúdo (mas aí, a verdade é que Eliot já não tinha o optimismo da juventude quando o escreveu, em 1948). Nunca foi moderno, na sua intransigência na defesa de um gosto que recusa a modernidade - repetiu na conferência uma frase chave: "Ao lermos a Odisseia, acharemos sempre que é mais moderna que o Ulisses, de Joyce". Apesar deste conservadorismo estético, ou em consequência dele, digamos, Steiner tornou-se um autor popular fora dos círculos académicos - imagino que atraindo a inveja dos especialistas das diversas áreas que toca - a filosofia política, a estética, a literatura. De resto, o seu combate à especialização de saberes no mundo actual acaba por ser uma defesa da sua própria obra e sentido de vida. Não surpreende.
A ameaça do ritmo do mundo actual aos livros é um falso problema. Havendo mais oferta, há mais possibilidade de escolha - mas as obras que definem uma existência continuam a poder ser lidas - há, de certeza, neste momento mais traduções da Odisseia disponíveis do que há cinquenta anos. Ou há trezentos. Steiner diz que dificilmente aparecerá outro Shakespeare - mas apenas há um por milénio; esperemos mais 500 anos. Enquanto vem e não vem, podemos ir lendo os autores que não são génios (é a centelha de Deus, acessível a poucos), recolhendo nos livros a maior dádiva de todas: a possibilidade de se escolher aquilo em que se acredita.
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sexta-feira, 2 de novembro de 2007
Do plágio como uma das belas artes
A teoria é esta: o plágio é sinal de inteligência; corrijo: o plágio é sinal de esperteza, com a agravante de ser consistente com uma das principais qualidades que um escritor deve ter: o olho para reconhecer os grandes que o precedem. No limite, qualquer escritor que não seja génio, com aspirações a escrever alguma coisa de jeito, deve fazer como Bruce Chatwin: abrir uma dúzia de clássicos enquanto escreve, e ir copiando ao sabor da pena, copiosamente copiando, frase a frase - um pouco de Flaubert, uma pitada de Tolstoi, um gosto de Kafka (o escritor mais fácil e mais óbvio de imitar) ao lado, aqui e ali Sterne polvilhando a prosa, quem sabe alguma elegância de Henry James para melhorar a linguagem, algo de Proust a acompanhar. E não falo apenas de uma vaga inspiração - isso é tolice, o resultado final acaba por ser um sabor amargo a uma falta de originalidade tremenda, um pouco como ler "O Meu Nome é Legião" depois de "O Som e a Fúria" ou qualquer romance de Miguel Real como digestivo aprés "Memorial do Convento". Amigos, trabalhem com método: cortando e copiando, como não? Mas faça-se com estilo; não adianta mergulhar em livros de História e fazer copy/paste de factos, como MST faz. Entediante, aborrecido. Imaginem: se os originais já o são, o que será a cópia? Roubar? Em grande. É que enfiar uma frase de Pessoa entre uma exclamação de Virginia Woolf e um longo parágrafo digressional de Saramago não é plágio: é o talento a revelar-se. Não é uma questão de coser os pontos bem cosidos; é saber esconder as costuras. Chatwin conseguiu, mal ou bem - os romances, bom... são fracos; mas os livros de viagem são soberbos. E estou comovidamente grato apenas a ele - porque sei que já pagou as suas próprias dívidas de gratidão aos amigos que conheceu depois de partir. Um copo com Wilde no Paraíso - o sonho de um copista de génio.
O problema, na verdade, é que Miguel Sousa Tavares não plagia. Não tem coragem (ou talento) para tanto. É um enfadonho jornalista a escrever uma reportagem num tom neutro, chatíssimo, sem marca própria, sem nervo, colando com cuspo datas e acontecimentos longínquos numa sequência infindável de personagens que têm tanta profundidade como o papel em que o seu nome é impresso. Resultaria em jornal ou em revista? Não duvido. Resulta como produto de marketing claro e evidente (ser figura televisiva; ter boa figura; ser polémico)? Claro que sim. É literatura? Vasco Pulido Valente já ditou a sentença. Está tudo dito.
Confie nos bons conselhos que lhe dão, homem, plagie, nem sabe o que está a perder (e os seus leitores também)!
(Publicado também no Auto-retrato)
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Sérgio Lavos
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terça-feira, 30 de outubro de 2007
a minha estreia

começava a parecer mal contar com o meu nome na barra lateral e nada postar, verbo metido à bruta pelos bloggers no léxico cá da terra, eu posto, tu postas, ele posta, só o vieira é que não postava, por manifesta preguiça aguda. ou mesmo pela obsessão que o tipo tem pelo seu próprio blogue, misto de atitude umbiguista e... como é que se diz em termos técnicos? ah, parvoíce. por falar em defeitos, traz-me aqui uma leitura que fiz já há umas semanas, leitura essa realizada em grande parte encostado a um ancoradouro de pedra em cacilhas – I luve ya margem sul – e aponto à questão dos defeitos, ou pontos fracos, como soi dizer-se entre os defensores das análises swot, pelo facto de o autor ser brasileiro. e judeu, ainda por cima. e médico, ou seja feiticeiro, porque como se sabe médico no brasil só se for a esmagar plantinhas na amazónia para dar a emborcar aos índios do xingu e aos narcotraficantes lançados de helicóptero pelas máfias rivais. houve muita gente queimada por menos do que isto. e isto, que tem a ver com literatura? tudo. ou melhor, tem tanto a ver com literatura como o título do livro em apreço tem a ver com o seu conteúdo. a orelha de van gogh é um livro de contos. soturno, mordaz, ácido, como eu gosto. o conto que dá título ao livro não é dos mais interessantes embora meta ao barulho uma falsa orelha de celebridade encarquilhada em formol e eu para petisco até prefiro outros acepipes. seja como for, gostei imenso do moacyr e dos seus relatos, são um bálsamo para o meu universo particular, amigo do negrume e do sorriso desconcertante. além disso o autor escreve com a fluidez e o desprendimento que são apanágio da rapaziada de vera cruz [e penso tratar-se da primeira vez que se escreve apanágio neste blogue], impensáveis para os criadores em língua portuguesa que estão aqui no nosso rectângulo; aliás, como se sabe, para se ser escritor em portugal é necessário ser-se deprimido, falar de pechichés e sonhar com lutas no mato apimentadas por turras. ou gostar muito de sofrer. horrores. ou de escrever com o coração, sem se perceber que isso é uma chafurdice tremenda. para cardiotorácica basta-me a escrita cirúrgica do doutor scliar. o livro abre com um monumental conto em que uma família rural enfrenta as pragas do egipto, aquelas mesmas do antigo testamento. não a poluição das pirâmides, os souvenirs medonhos ou a condução anárquica do cairo. um mimo. não me perguntem por gramáticas, complementos, sufixos e figuras de estilo. limito-me a definir a orelha de van gogh em duas palavras: gostei. oops.
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pedro vieira
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Forrageou ou não?
Primeira frase do romance Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez:
«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que o seu pai o levou para conhecer o gelo.»
Primeira frase do romance Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares:
«Diogo Ascêncio Cortes Ribera Flores – conforme constava do seu registo de baptismo – tinha quinze anos de idade quando o pai o levou pela primeira vez a ver uma tourada.»Também se faz a mesma pergunta aqui e a devida vénia a José Mario Silva.
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Luís Carlos Silva
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22:13
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domingo, 21 de outubro de 2007
Gabriel García Márquez comemora 25 anos do Prémio Nobel
A 21 de Outubro de 1982, a Academia Sueca anunciava que o escritor premiado naquele ano era García Márquez, principal representante do «boom» da América Latina e o maior divulgador do realismo mágico na narrativa hispano-americana.
García Márquez era quem receberia o prémio em Dezembro, em Estocolmo.
O nome do colombiano mais conhecido e o único a receber um Nobel já tinha surgido entre os favoritos da Academia Sueca, tendo como concorrentes o britânico Graham Greene e o alemão Günther Grass.
O aniversário das bodas de prata do prémio soma-se aos 80 anos, completados a 6 de Março, num 2007 cheio de comemorações.
Fonte: sapo.pt (21-10-2007)
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Luís Carlos Silva
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18:14
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sexta-feira, 19 de outubro de 2007
O Perdão dos Templarios
(da responsabilidade da Editora Zéfiro)
Sendo o resultado de um projecto inédito, a nível mundial, da editora Zéfiro, este livro toma como ponto de partida o Pergaminho de Chinon, um manuscrito encontrado na Biblioteca Secreta do Vaticano em 2001, e que indicia um "perdão secreto" dado aos templários pela Igreja, em 1308 - um ano após a perseguição feita aos cavaleiros. O manuscrito foi transcrito e traduzido pela Drª Filipa Roldão e a Drª Joana Serafim, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, directamente a partir do documento original, em latim medieval. A sua tradução, bem como a transcrição, são publicadas pela primeira vez na língua portuguesa. No interior da obra encontra-se uma cópia a cores da frente e verso do Pergaminho de Chinon.
O conteúdo do pergaminho foi alvo de um estudo atento e meticuloso de Pinharanda Gomes - renomado pensador e investigador português - que aborda um presumível perdão concedido aos templários na «inquirição de Chinon», o Concílio de Viena de França, a Bula Vox in Excelso e a revisão do processo dos cavaleiros do Templo.
Título: O Perdão dos Templários
Autores: Alexandre Gabriel, Eduardo Amarante, José Medeiros, Luís-Carlos Silva, Pinharanda Gomes, Rainer Daehnhardt, Sérgio Sousa-Rodrigues
Editora: Zéfiro
Dimensão: 17 x 24 cm
Nº de págs.: 274
ISBN: 972-8958-22-6
P.V.P. C/ IVA: 23,75 €
P.V.P. Sem IVA: 22,62 €
Colecção: Arquivos da Cavalaria
Categoria: Templários
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Luís Carlos Silva
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quinta-feira, 4 de outubro de 2007
Lançamento de Livro
O lançamento deste livro é acompanhado por um programa de actividades que visam assinalar a data e prestar homenagem a estes Cavaleiros que mudaram a face da Europa (e do Mundo) medieval.
O programa pode ser consultado aqui.
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Luís Carlos Silva
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quarta-feira, 3 de outubro de 2007
Paul Auster
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segunda-feira, 24 de setembro de 2007
Contra o fanatismo
"Contra o Fanatismo", de Amos Oz, é um curto ensaio, em três partes, sobre a impossibilidade. Entre Israel e a Palestina não existe apenas um muro e cinquenta anos de ódio cultivado por dois povos que, basicamente, têm a mesma origem étnica: os israelitas e os palestinianos. Não esquecendo que israelita tanto se pode referir a um judeu semita ou a judeu de leste, a um árabe semita ou a um imigrante norte-africano. O problema da nacionalidade é uma mistificação: a nação palestiniana não existe - e dentro da nação israelita, artificial e nascida da culpa do Ocidente em relação ao Holocausto, a verdadeira essência do radicalismo tem outra origem: uma cultura de milénios. A religião, para os israelitas, é, muitas vezes, um pretexto. Não parece ser para os palestinianos, mas, como Oz afirma, o fanatismo antecede qualquer religião, e ultrapassa-a.No fim, a maior impossibilidade que o ensaio de Oz denota é a da sua voz se fazer ouvir por entre a poeira levantada pelos radicais de ambos os lados. A lucidez de um homem só de nada vale perante a loucura de muitos. E essa é a maior derrota para os dois povos.
(O livro é editado pelo Público)
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Sérgio Lavos
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sábado, 22 de setembro de 2007
A realidade
Por vezes, cruzava as noites a ler; acontecia quase sempre com policiais, o género da aprendizagem. Os primeiros livros que lemos têm de ter aquele gancho, o querer saber quem matou. Quando nos habituamos a outros géneros, o gancho ganha outras formas, mas continua presente. É difícil entrar num livro que nos deixe completamente perdidos, sem farol a indicar o caminho; no entanto, com o tempo resistimos com mais força a essa necessidade. Avançamos às escuras, e por vezes julgamos, no coração da floresta, que o autor nos abandona, sem um propósito aparente - a melhor literatura dos últimos cem anos vive deste artifício. Por que razão Joseph K. é perseguido? O que leva o estrangeiro a matar o homem na praia? O suspense prolonga-se para lá da última linha - e a eterna promessa do policial, a de que no fim tudo será desvendado, fica por cumprir, ou, de outro modo, é deixada nas mãos do leitor. Os livros sem solução são aqueles que oferecem mais respostas - mas nunca certezas. Haverá algo que se aproxime tanto da substância essencial da existência humana?
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Sérgio Lavos
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00:28
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terça-feira, 18 de setembro de 2007
Longe de Manaus
O romance da solidão portuguesa
Francisco José Viegas
Edições Asa
Mas este intróito é praticamente desnecessário, pois desde que Longe de Manaus recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela da APE, para o ano de 2005,
Longe de Manaus é de facto uma obra que merece distinção. É um livro que sob o ponto de vista puramente técnico tem pouquíssimas falhas a assinalar, o estilo é cativante, fresco e original, e a história muito intrincada, mas excepcionalmente bem esquematizada e absolutamente irrepreensível.
O inspector Jaime Ramos, adepto do FCP, fumador de charutos, cinquentão, solteiro e homem de poucos sorrisos, é um personagem recorrente na obra de FJV, mas não é de todo necessário conhecê-lo de outros livros para a leitura deste Longe de Manaus.
Desta feita, Jaime Ramos tem para resolução um caso que se apresenta com poucas pistas para seguir e não fosse a obstinação deste inspector, provavelmente seria esquecido e arquivado. Mas Jaime Ramos é um homem obstinado, como dissemos, e a sua investigação vai levá-lo a Manaus, uma cidade remota no coração da Amazónia. Pouco se desvela nesta viagem, mas a investigação vai, pouco a pouco, revelando novas pistas e o cenário estende-se a uma tumultuosa Angola de antes da revolução de Abril e
Mas, não vamos levantar o véu sob qualquer outro aspecto da história deste policial que, como diz o autor, subverte as regras deste género; «Um romance policial, como se sabe, tem as suas regras. Este não tem», diz-nos FJV nas primeiras páginas. Diremos apenas que este livro interessará não só aos leitores de policiais, mas também aos leitores de ficção em geral. Mostra-nos que existe literatura de grande qualidade em Portugal. Longe de Manaus não sendo uma obra-prima, é um livro excelente e que satisfaz bastante; é um livro que nos faz querer ler mais FJV e que nos faz acreditar que este escritor tem ainda muito para dar…
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Luís Carlos Silva
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domingo, 9 de setembro de 2007
Arte de ler
Regresse às lombadas que gritam. Passe os dedos pelos títulos. Quantos leu, até agora? Pretende resgatar do limbo algum que tenha ficado perdido, entre compra e esquecimento da mesma? Ainda se lembra de ter comprado aquele romance do Chesterton, de lhe terem oferecido aquela antologia de William Blake? De ter roubado, em algum dia perdido nas teias da memória, aquele decisivo diálogo sobre o amor, de Platão, e de o ter partilhado com a sua amada, numa noite fria de inverno, à lareira? Fique aí. Pare. Abra o livro, sinta o papel, as letras impressas, passe o nariz pelo cheiro amarelo que dele emana. Amarelo, sim, amarelo. É sempre amarelo o cheiro de livros velhos. Imagine Jorge Luis Borges na sua biblioteca, ouvindo as palavras dos seus leitores, mergulhado nas silenciosas trevas da cegueira. E as palavras, soando, pairando, em redor, tão imateriais como o ar, cativas de uma matéria primitiva, clarão inicial da inteligência humana. Imagine Borges e o seu olfacto apurado, captando os mil e um cambiantes que as palavras dos outros transmitem.
Imagine que é Borges, e escolha o seu livro pelo cheiro. Pelo tacto. Ignore todo um passado de leituras, de preconceitos e escolhas. A página em branco brilha à sua frente. Ler um livro, como escrever um conto - do nada nasce tudo. Estará pronto para o seu big bang?
Imagina ser isto um exagero? As palavras tendem para o exagero. Mas um livro recusa o excesso, repõe a ordem no mundo. O esquema de um livro serve de modelo para a vida. Já viu como as frases encaixam umas nas outras, em harmonia, ritmadamente, até construirem parágrafos? E os parágrafos, já reparou como se sucedem numa cadência clássica, acompanhando o fluir do pensamento do escritor, a melodia interior que ele cria? Nada existe fora do texto. Conhece alguma vida assim tão perfeita?
Entrou no jogo. Pegou no livro. Sentiu-lhe o pulso. Sentou-se no cadeirão que escolheu, entre dezenas, na loja de móveis. Um livro precisa de conforto. Um livro precisa que ignore a vida que corre lá fora. Quem lê deveria ser obrigado, antes, a fazer um curso de apneia. Mergulhar dentro do livro e tornar-se peixe. Ler não é uma arte. É outrar-se, devir outro. Desaparecer dentro de si próprio. Reconhecer-se.
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Sérgio Lavos
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