quarta-feira, 23 de abril de 2008
Intersecções
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quarta-feira, 16 de abril de 2008
A ceifeira
A biografia não passa de uma sequência de datas e acontecimentos. Separo as duas noções porque raramente coincidem. O autor nasce, vive (e casa-se ou não, morre-lhe alguém ou não, completa a universidade ou não); e morre. Mas se falamos de acontecimentos, falamos de outra coisa. Da obra. Por alguém morrer, o autor mergulha na depressão e muda completamente o seu estilo. Cresceu na sombra de uma mãe protectora: escreverá de determinado modo. A História sofre convulsões que lhe dificultam a vida: o autor contraria a História e cria contra ela.
Falando de biografia: os autores que morrem novos são sempre lamentados a dobrar. Porque a empatia gerada com o leitor simula uma familiariedade postiça, o leitor chora o autor que morre como se fosse um dos seus. Porque o autor desaparece demasiado cedo, cisma-se na obra que ficou por criar, sonha-se com uma arca cheia de inéditos que possam alimentar a fome que se segue ao desaparecimento, inventariam-se conjecturas sobre o rumo que a obra por criar poderia ter tomado.
O leitor precisa destas consolações na sua relação com os autores de quem gosta. Não aprecia o rigor do académico, capaz de analisar friamente a obra desligada da vida. A biografia não é apenas um conjunto de circunstâncias sem relação com os livros. Acabe-se com as datas; obtém-se o chão onde a obra germina, o intervalo no tempo delimitando a marca do escritor na terra.
Não carecemos de adivinhações sobre obras inacabadas. Mas não podemos recusar o apelo da intimidade forçada. Ao ler um livro, convidamos para junto de nós quem o escreve. Esperando que o arrependimento não surja. Mais do que podemos desejar na relação com os outros. Vantagens de uma existência de papel.
(Texto publicado originalmente no Auto-retrato)
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sexta-feira, 4 de abril de 2008
A arte de ver
Não é raro, ao ler um romance, darmos por nós a imaginar como seria aquela história adaptada para o ecrã, grande ou pequeno; mais justo para o escritor seria guardarmos aquela história e não pensar sequer em outro autor a refazer as palavras escritas.Um realizador trai sempre uma história, trai sempre as palavras do escritor. Há casos de adaptações feitas pelos próprios escritores, casos de escritores que se tornam realizadores. Marguerite Duras, Samuel Beckett, William Faulkner a trabalhar como argumentista de filmes que adaptavam obras de autores que, aparentemente, estavam nos antípodas da sua própria obra escrita, como Raymond Chandler (Big Sleep) ou Ernest Hemingway (To Have and To Have Not), tudo exemplos de gente ilustre que dedicou parte do seu tempo e dos seus esforços ao cinema. Mas é um facto aceite que os grandes filmes da história do cinema raramente nascem de grandes obras literárias; a linguagem cinematográfica funda-se em valores diferentes da linguagem literária. Quando um texto escrito é transformado em imagens, as perdas e os ganhos tornam o resultado final um objecto em tudo distante do original. Por razões estruturais - a existência de dois planos narrativos paralelos, o falado e o filmado - ou por razões que têm que ver com decisões do realizador, necessariamente diferentes das decisões do escritor, o filme nunca poderá traduzir fielmente tudo o que um romance diz. Será discutível afirmar que a riqueza da palavra escrita, que permite infinitas interpretações do texto, se sobrepõe à linearidade plana das imagens em movimento; as grandes obras cinematográficas são tão ricas em conteúdo e na forma como a melhor das obras de ficção escrita. Mas a verdade é que existe algo que as imagens nunca produzem: as aliterações, as metáforas, a maravilhosa riqueza linguística que um estilista da língua consegue produzir. O prazer do texto, de acordo com Roland Barthes, não nasce apenas da descodificação da palavra do autor; há grandes ideias que surgem como resultado do simples processo de ler um texto escrito de forma exemplar. E quanto mais complexo e denso é um texto mais ideias dele se podem extrair. Reduzir um romance ou um conto apenas à história que é contada é um erro em que não devemos incorrer.
Mas, é verdade, há quem escreva de uma forma cinematográfica. Será impossível alguma vez realizar um filme que se aproxime sequer do génio de Beckett, por exemplo, um autor que vive da força da linguagem. Ninguém conseguiu ainda fazer uma obra minimamente decente que adapte Kafka (apesar do esforço de Orson Welles em O Processo). Mas reinventar histórias medíocres, como Hitchcock fez tantas vezes, é um caminho fácil; e, ao mesmo tempo, espinhoso. O génio de Hitchcock reside na extraordinária expressividade dos pormenores puramente cinematográficos; as histórias eram um pretexto para a invenção, para a ostentação de uma mestria técnica invejável.
Mais recentemente, os irmãos Cohen fizeram o óbvio: adaptaram um texto que é quase um guião, Este País Não é Para Velhos. O estilo de McCarthy, seco, sincopado, com indicações de cena cinematográficas, presta-se a isto. Mas havia exemplos anteriores de romances de McCarthy tornados obras medianas, discretas; refiro-me a Belos Cavalos, realizado por Billy Bob Thornton em modo de completo desperdício: as paisagens, o deserto, a violência, tudo serviu para um filme que chega a ser um pastelão romântico.
A verdade é que o filme dos Cohen é uma obra-prima, por razões que vão muito além da riqueza do texto de McCarthy. A história é nada, tudo depende do olhar do cineasta. Os cenários imaginados partem sempre de um ponto interior, a imaginação do artista. E neste ponto, escritor e realizador aproximam-se: ambos criam imagens; o primeiro descobre-as através de palavras; o segundo persegue-as com uma câmara. Ramos divergentes da mesma árvore do conhecimento.
Nota: as imagens são de retiradas do filme de Alain Resnais que adapta um texto de Alain Robbe-Grillet, O Último Ano Em Marienbad. Um exemplo de uma adaptação que capta na totalidade uma ideia do texto. Como filmar a percepção individual do tempo.
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terça-feira, 1 de abril de 2008
Nomeação
Pela quantidade de comentários de bloggers a sugerir os seus próprios blogues, saber que este nosso foi notado e não procurou fazer-se notar, é já para nós uma vitória...
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Luís Carlos Silva
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quarta-feira, 26 de março de 2008
Memória de um sonho
Em questões de livros, por exemplo, a minha memória assemelha-se, não tanto a um queijo suíço, mas a um pântano pejado de charcos onde estagnam todas as obras marcantes da primeira fase da idade adulta. A verdade é esta: recordo melhor os livros que lia aos 11 anos do que aqueles que li naquele período nebuloso entre os 16 e os 25 anos. Clarificando: tenho os livros nas prateleiras, passo os dedos por eles, e de cada vez que isso acontece, lembro-me vagamente da história, da época em que o comprei, com sorte do local onde o encontrei (em grande parte dos casos, nas minhas incursões pela Feira do Livro). Mas na realidade muitos dos que li não se fixaram, não deixaram cicatriz visível no passado. Por outro lado, ainda me lembro de muitas histórias d'Os Cinco, de todos os livros do Julio Verne, de todos os romances de Agatha Christie que li; apesar de não ter os livros - vivi numa aldeia, e passei a minha infância e adolescência a requisitar livros a bibliotecas escolares, municipais, e a uma carrinha da Gulbenkian que, uma vez por mês, passava pelo centro da aldeia e ali ficava parada durante o tempo suficiente para que a meia-dúzia de leitores renovasse requisições ou escolhesse livros novos. Talvez a selectividade da memória tenha apenas a ver com a construção da infância, o lugar idílico perdido no tempo. Ou então a nostalgia acolhe apenas as raridades, as singularidades de uma vida. E ler, para quem cresceu numa casa sem livros, era um acontecimento, porque não dizê-lo, e caindo no sentimentalismo, mágico.
Portanto, não me perguntem sobre as minhas obras-primas da década dos vinte, quando o gosto se começava a sedimentar; as fundações do leitor que sou vão mais fundo, ao tempo da biblioteca itinerante da Gulbenkian. Ao tempo em que fiquei com dois livros requisitados para sempre (nunca os devolvi). Não sei onde estão agora esses livros (talvez ainda sobrevivam nos escolhos da casa de infância); mas lembro-me muito bem de quais eram, tantas foram as vezes que os li, na falta de outras obras - um chamava-se Grandes Exploradores, e era uma série de mini-biografias de aventureiros de sempre, piratas e marinheiros, exploradores do Ártico e aviadores. O outro era um livro de histórias sobrenaturais, relatos de desaparecimentos no Triângulo das Bermudas e aparições do Holandês Voador, visões de fantasmas e esqueletos que mudavam de lugar.
Apesar de não os ter nas minhas estantes, a memória encarregou-se de os tornar mais reais que muitos que agora observo; um livro é tudo o que está para lá das páginas.
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Sérgio Lavos
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A ler
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terça-feira, 18 de março de 2008
O Crocodilo Que Voa
Quando, a determinada altura, o entrevistador pergunta a Luiz Pacheco se valeu a pena, ele responde:- Se valeu a pena?!... O que é que eu posso dizer a isso?... Foi como foi.
Não sei que resposta o entrevistador esperava; foi como foi. Há quem se atreva a dizer: foi bom, vivi tudo, vou feliz. Há quem arrisque: tenho medo, lamento que tenha medo, perdi a coragem que a vida me foi dando. A empáfia da personalidade que se vai sem arrependimentos apenas se perdoa se aceitarmos o natural orgulho humano; ninguém gosta de admitir que perdeu.
O que perdeu Luiz Pacheco? Nada. Qual o interesse de reunir em livro um conjunto de entrevistas que abarca o último quarto de vida do escritor libertino? Tanto do ponto de vista do leitor cusco como do autor, todo. Luiz Pacheco foi um malabarista da vida. Dançava para um público atento e atencioso, dava-se ares de ser mais do que era, ou menos do que parecia ser. A sua vida oscilou entre a decadência e a glória, mas é certo que teve mais da primeira do que da segunda. Ele tirava gozo de falar, de se expor, de confessar, de provocar, e sobretudo de se arrepender do que disse. No livro em questão, O Crocodilo que Voa, são inúmeras as vezes que lhe perguntam: disse isto antes, é verdade?, como que para confirmar o escândalo, a pouca-vergonha; sobre sexo, quase sempre, e a má-língua, que também acaba por ser uma espécie de coito interrompido. Ele responde invariavelmente: eh, pá, isso não, nem pensar, exageram. Mas nunca desmente. O jogo era este, e desde a célebre entrevista dada à Kapa em 1992 até à sua morte, foi assim. A última entrevista, de resto, publicada postumamente no SOL, é uma exemplar lástima. O aproveitamento do entrevistador é penoso, o sofrimento em directo do escritor é lamentável.
Sobretudo, ler de fio a pavio o livro organizado por João Pedro George cansa. Pela repetição das histórias, pela insistência nos temas, pelo constante repisar de provocações, a cabra, a puta a fazer o pino, os magalas, etc.
O que adianta isto então à obra de Luiz Pacheco? Nada. Nada acrescenta ao brilho intermitente da sua prosa, a verve pontual ancorada no real que foi marca do que escreveu. Admito que, enquanto as entrevistas foram sendo publicadas na imprensa - a primeira que li foi feita pela Cláudia Galhós para o Blitz, na célebre sessão fotográfica com o velho vestido de Pai Natal, involuntário palhaço da geração rasca que lia o jornal - celebrava com júbilo não disfarçado cada aparição da figura. Agora, vistas as coisas em letra de forma, impressas e bem encadernadas, resta nada. Apesar do esforço do prefácio, do artesanato impecável do objecto livro, da tentativa (um cínico diria vampirismo, o Pacheco vociferaria chupismo) de divulgar junto de um público alargado a obra do último (e mais iconoclasta) representante de uma época que se finou há muito.
No fundo, ouvíamos (lendo) as patacoadas do Pacheco como se ouve o louco do bairro. Aquela história da sabedoria brotar dos sítios mais improváveis não anda longe disto. A telenovela do intelectual com pretensões anarquistas; deixemos o livro de lado e peguemos no que escreveu. A vida fora da vida. O que interessa.
(O Crocodilo Que Voa - entrevistas a Luiz Pacheco, organizadas por João Pedro George, ed. Tinta da China)
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Sérgio Lavos
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domingo, 3 de fevereiro de 2008
Dom Frei Gedeão, templário

Dom Frei Gedeão, templário
Mário Simões Dias
Edições de autor 2001
Sem dúvida um pequeno Grande Livro.
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Francisco Canelas de Melo
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quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
O Poder da Focalização - Apresentações da Obra
2 Fevereiro (Sáb) - 17h
FNAC CascaiShopping
8 Fevereiro (Sex) - 21h30
FNAC Alfragilde
15 Fevereiro (Sex) - 19h
FNAC Colombo
Apresentação da obra por Luis Cardoso, business coach certificado.
http://opoderdafocalizacao.blogspot.com
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mahayana
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Textos de Guerrilha de Luiz Pacheco
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Luís Carlos Silva
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
26 dias
Só vou postar quando passar um mês desde a última postagem. Tenho dito.
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Sérgio Lavos
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domingo, 30 de dezembro de 2007
Coleccionismo para totós (2007 revisto)
Não há razão para pânico ou histerias. Não vale a pena correr a esconder para debaixo da mesa mais próxima, vender todas as acções em desespero ou deitar a toalha ao chão. As coisas mudam, mas nem sempre mudam para muito pior.
A situação aconselha prudência. Miguel Pais do Amaral vai compondo o ramalhete de editoras, qual apaixonada coleccionando declarações de pretendentes; os editores em pré-reforma engordam a conta bancária, embarcam na aposentação dourada para a qual trabalharam toda uma vida. (E quem os pode censurar, verdadeiramente?) Quem sobra nesta história de demandas quixotescas, negociações ferozes, batidas com a porta por parte de editores, lacrimejar de donzelas ofendidas, lamentações, choro e ranger de dentes?
Meus amigos, quem vai sofrer, quem já começou a sofrer, são as centenas de pessoas que foram e irão para as ruas durante os meses que se avizinham. A concentração empresarial e o monopólio têm o sabor de um whisky velho para quem vai enriquecendo e o gosto amargo do fel para quem desespera perante a possibilidade de desemprego. Não há razão para pânicos ou histerias? Quem por lá tiver de passar, passará, alguém acha que pensa de modo diferente quem trata da vida de pessoas como se fossem “peanuts”? O caridoso coração de Pais do Amaral estremece ao ouvir os rumores de que um negócio gigantesco, no espaço de um ano ou dois, se prepara, entre ele e a Bertelsman. De bom-grado o empresário se dispôs a fazer o jogo sujo de angariar, cortar a eito (património, capital, pessoas) e depois compôr tudo muito bem composto para oferecer, em belo bouquet feito de prémio Nobel e do mais importante escritor de língua portuguesa (palavras do próprio), ao noivo alemão que colecciona editoras pelo mundo fora.
Falando claro: nenhum leitor exigente perderá com a concentração editorial. Haverá sempre espaço no mercado para projectos que visam editar primeiro por gosto. As notícias sobre a estagnação do mercado da edição são manifestamente exageradas; nos últimos anos são muitos as editores que realmente trouxeram algo de novo ao mercado (A Cavalo de Ferro, a Livros de Areia, A Ovni, todas as minúsculas editoras que continuam a albergar a poesia, como a Averno), e houve também a renovação de algumas editoras que já eram manifestamente importantes no mercado português, como a Assírio & Alvim, a Cotovia, a Fenda. É verdade que nos últimos tempos a vida dos pequenos editores não tem sido fácil: a entrada das grandes superfícies, incluindo a FNAC, no mercado e a expansão dos grupos livreiros levou a que o poder de negociação destes últimos junto dos editores aumentasse exponencialmente, o que se traduziu em margens de comercialização bastas vezes incomportáveis. Mas também é verdade que a única razão para os livreiros terem conseguido forçar os descontos pretendidos foi a falta de um entendimento entre editores, foi a inexistência de uma associação de editores forte e unida, disposta a defender o dumping praticado pelas grandes superfícies. A lei do preço fixo seria uma óptima medida, se não vivêssemos em Portugal. Mas como a regra por cá é contornar chico-espertamente a lei, tornou-se norma vermos nos hipermercados livros com menos de 18 meses de edição com descontos astronómicos, e ninguém acusa ninguém. A ASAE serve mesmo para quê?
Num meio editorial onde as editoras de referência num passado recente (Asa, D. Quixote, Caminho, Gradiva) convivem lado a lado com os abortos editoriais que se foram instalando no mercado durante a última década, é de esperar o pior. Não é que, por exemplo, a D. Quixote, se salvaguarde do descalabro dos últimos anos, desde a saída de João Rodrigues (agora, na Sextante, outro exemplo de um excelente projecto editorial). Quando colocam à frente das empresas gente formada em Escolas Superiores Comerciais com um currículo assinalável na direcção das cadeias Lidl, sabe-se muito o que se pretende: baixar a fasquia, baixar, até acabar editando potenciais best-sellers pelos quais se pagam milhares à cabeça e que acabam por redundar em flops, e, deste modo, deixar de publicar produtos de qualidade e sucesso garantido, como é o caso dos outros quatro livros de Carlos Ruiz Záfon que precederam o sucesso de A Sombra do Vento (inexplicável). Resultado: o desastre e a consequente venda a alguém que se orgulha de ler, agora e sempre, um livro apenas: o de cheques.
Esperamos o pior, mas alguém há-de ocupar o lugar de referência das editoras que se afundam. Se Lobo Antunes sair da D. Quixote, alguém o há-de publicar. Como a Luísa Costa Gomes. Ou José Saramago, da Caminho. Ou Gonçalo Tavares.
Seria tão bom se todos fizessem como Rui Zink, que ao primeiro sinal de deriva da D. Quixote (Carolina e C.ª) abandonou o barco, indo parar à Teorema (que, curiosamente, também foi vendida a um grupo de investidores de contornos, no mínimo, nebulosos). Pessimismo? Apenas para quem achar que editar é como somar números numa calculadora. Os bons continuarão por cá.
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quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
Boca do Inferno
Escrever sobre o livro de Ricardo Araújo Pereira é pouco sensato; primeiro, porque o juízo do público já o colocou num patamar acima de qualquer crítica; segundo, porque Miguel Esteves Cardoso já o leu (e quatro vezes!) e antecipou-se a este texto; terceiro, porque qualquer texto que eu escreva sobre as crónicas do humorista arrisca-se a fazer figura de parente pobre ao lado de... qualquer crónica que apareça no livro recenseado. No fundo, escrever sobre o livro de Ricardo Araújo Pereira é como dançar sobre artesanato (parafraseando um conhecido fenomenólogo e estudioso dos rituais de acasalamento galináceos de que agora não quero recordar o nome). O que resta, então, fazer? Continuando na técnica de fragmentação de um texto em pontos (tão fácil, tão fácil), deixar o livro descansado, depois de todo o esforço físico que fizemos para chegar ao fim do livro (rir cansa todos os músculos do corpo, ó se cansa); ou pegar na obra e tentar mostrar por outras palavras, diferentes e necessariamente mais fraquinhas do que as de Araújo Pereira, por que razão Boca do Inferno não é apenas mais um livro de crónicas escrito por um humorista – no meio da enxurrada de tentativas pouco sérias de fazer humor que, nos últimos anos, tem inundado as livrarias.
Decidi-me a fazer nenhuma das duas acima. Nem fiquei quietinho a um canto, pensando em todas as boas piadas que eu gostaria de ter escrito em vez do sacaninha de cabelo rapado, nem me atirei à vaca fria, encetando um vão ensaio para uma hermenêutica do humor pereirano. Será que há por aí professores de literatura que queiram levar a cabo tal tarefa? Não é difícil, e sempre seria coisa produtiva, irritar mais a azia crónica de Vasco Pulido Valente - “não gosto, não li, o Eça de Queiroz é muitas vezes superior, assim como um fulano que eu conheci em Oxford e limpava retretes no intervalo dos livros que escrevia”.
Uma crónica tem de ter técnica (e recuso-me a tentar produzir uma metáfora futebolística). Uma crónica tem de ter estilo. Uma crónica tem de conseguir conciliar técnica e estilo – ou o estilo será uma conjugação feliz de todas as boas regras da técnica? Não li suficientemente sobre o assunto (sim sou um leigo); para dizer a verdade, não li nada. Nem me apetece pensar um pouco sobre o caso, debruçar-me, correndo o risco de cair do parapeito, sobre o tema (e aí vão três sinónimos em três frases seguidas). O que me interessa, simplesmente, firmemente, é que o texto consiga atingir o seu pressuposto inicial. E qual é o pressuposto inicial de um texto do Ricardo Araújo Pereira? Que o leitor acabe por fazer figura de parvo em transportes públicos. Eu explico, em vários passos: primeiro, o leitor senta-se exactamente ao lado da loura de pernas descobertas e busto que podia estar mais encoberto (se fôssemos o João César das Neves). Que hajam não sei quantos mais lugares vagos na carruagem, é um pormenor. Segundo, retira (ou tira, segundo algumas versões) da mala um livro que não é o último do Miguel Sousa Tavares. Se ainda não tinha percebido, eu explico-lhe: você, caro leitor, está sentado ao lado de uma mulher que poderia ser a futura mãe dos seus filhos a ler um livro escrito pelo Ricardo Araújo Pereira. E, passados poucos segundos, a primeira gargalhada. Não ligue ao olhar de reprovação da loura. Desconfie antes quando ela se levantar e dirigir-se ao lugar no lado oposto da carruagem. E aproveite para tirar partido da sua figura ao máximo: revire os olhos, convulsione (existirá, este verbo), soluce, deixe que as lágrimas assomem aos olhos (bela imagem, de uma poeticidade intensa). Está feliz? Não, caro leitor, está fazer figura de parvo.
Quem me conhece sabe que quando me dou ao trabalho de explicar por que razão gosto de alguma coisa, o efeito atingido é necessariamente o oposto do pretendido; se digo: leiam autores nórdicos e vejam cinema europeu, sei que estou a convencer o meu interlocutor a embrenhar-se nos labirintos de Jorge Luis Borges e a passar umas boas horas a ver westerns da era clássica de Hollywood; o que me deixa satisfeito, porque no fundo era isso que eu pretendia fazer ao início. Conheço-me bem demais (já me aturo há trinta... hum, vinte e dois anos), por isso reitero: não leiam Boca do Inferno. A sério, sabiam que o Miguel Sousa Tavares publicou um livro há pouco tempo?
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Sérgio Lavos
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terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Prémio Pessoa para Irene Flunser Pimentel
Este ano publicou um estudo sobre a polícia política intitulado a A História da PIDE. Publicou ainda Mocidade Portuguesa Feminina, Vítimas de Salazar e, em 2006, Os judeus em Portugal durante a 2ª Guerra Mundial.
Colaborou em vários projectos de investigação incidindo sobre temas de história contemporânea e foi ainda autora da parte portuguesa de Contai aos vossos filhos (2001), livro europeu sobre o Holocausto na Europa.
Publicou também a Fotobiografia de Manuel Gonçalves Cerejeira (2002) e acabou recentemente a Fotobiografia de José Afonso, a lançar em breve. Actualmente trabalha num projecto de investigação sobre os Tribunais no período do Estado Novo.
Em declarações à Agência Lusa, a historiadora, de 57 anos, confessou que foi «uma emoção tremenda» receber o Prémio Pessoa, considerando que a distinção é «sobretudo dedicada aos investigadores de história contemporânea».
«Os seus livros, que nunca negam a sua adesão à causa das liberdades e dos direitos humanos, revelam um notável esforço de rigor intelectual e de objectividade académica», salientou.
É a segunda vez que o Prémio Pessoa é atribuído a um especialista em História. O primeiro foi José Mattoso, em 1987.
Fonte: JN/Sapo
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Luís Carlos Silva
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