quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O Cavaleiro da Ilha do Corvo

Joaquim Fernandes

Círculo de Leitores / Temas e Debates

Dá-se o caso de entretanto ter lido O Cavaleiro da Ilha do Corvo de Joaquim Fernandes.

Confesso que não estava nos meus planos fazê-lo, mas o Amigo João Caraça, entusiasmado essencialmente com os erros que a obra apresenta, perguntou-me se já o tinha lido e, ao ter respondido que não, decidi nesse momento que o iria fazer. Desta forma, num próximo reencontro estaria munido de argumentos para mais uma prazenteira troca de impressões com o eminente cientista português.

Primeiramente, pensei que não iria gostar do livro devido à forma, isto é, ao estilo da escrita. Contudo, não se pode dizer que o livro esteja mal escrito. Apesar de se tratar do primeiro romance do autor, nota-se que domina já algumas técnicas básicas do género ficcional e o livro até se lê bem.

Claro está que a colagem ao ainda famoso Código da Vinci é evidente – O Cavaleiro da Ilha do Corvo é uma tentativa descarada de fazer um Código da Vinci à portuguesa. As semelhanças são indiscutíveis: um “casal” de protagonistas, sendo que o personagem masculino é também um professor universitário; uma “sociedade secreta” que procura a todo o custo que não se conheça a “verdade”; um sábio idoso, auxiliado por um mordomo, mas que desta feita não é o “mau da fita”; aventuras e peripécias várias ao longo do livro, mas num estilo muito mais “pausado” quando comparado com o Código.

Mas, tal como no Código da Vinci, também aqui estamos na presença de uma conjectura que não chega a teorema. Isto é, por muitas voltas que o autor dê, por muitas ideias que apresente e por muito que se esforce para que tudo faça sentido, o certo é que as bases são pouco sólidas. Essencialmente, o romance anda à volta de uma hipotética estátua encontrada pelos navegadores portugueses na Ilha do Corvo, decorria o reinado de D. Manuel I e que, juntamente com outros achados, provaria que as ilhas haviam sido descobertas muitos séculos antes dos navegadores portugueses. A descrição desta estátua é feita por Damião de Góis, o que, para o autor, é suficiente como garantia de veracidade. Ou seja, Damião de Góis é, para o autor, uma fonte autorizada e irrefutável. Contudo, e apesar de termos em grande conta o prestigiado humanista português, temos de relembrar que é o mesmo Damião de Góis que dedica várias linhas na sua Descrição da Cidade de Lisboa à existência de tritões, nereidas e sereias nas águas limítrofes à cidade. Apesar de não emitir qualquer parecer, é evidente, pela leitura das suas palavras, que não descarta a hipótese e até, pelo contrário, dá a entender que acredita na existência desses míticos seres. Assim, poderíamos dizer que a acreditar em tudo o que Damião de Góis escreveu, deveríamos também acreditar na existência de tritões, nereidas e sereias nas águas e grutas da costa portuguesa…

Mas não é só neste aspecto que o livro é pouco consistente; alguns erros grosseiros, como aquele que o nosso Amigo João Caraça nos realçou, que o autor confunde meridianos com paralelos, fazem com que o livro perca alguma da credibilidade.

Ainda assim, trata-se de um livro que satisfaz bastante, enquanto obra de ficção, pois tem um enredo bem encadeado e cativante.

Contudo, como dissemos acima, a conjectura não passa a teorema. Se fosse esse o caso, o autor teria escrito um ensaio e não uma obra de ficção. Este livro padece da mesma enfermidade do Código da Vinci – pretende apresentar uma teoria nova, escondida pelas entidades e instituições instaladas e que pode revolucionar a forma como vemos o Mundo, mas não passa de teoria com demasiadas falhas para ser aceite unanimemente.

domingo, 3 de agosto de 2008

Verão

Há quem guarde para o Verão as leituras extensas, os tijolos para os quais não teve paciência, nem tempo, para ler durante o resto do ano. Há quem comece livros e nunca os termine; há quem os abandone logo no início e os substitua por algo mais leve, digamos, como se a leveza fosse uma qualidade material e não um ponto de vista. Há quem escolha policiais, porque vão bem com a praia e as esplanadas, as gotas de suor sobre a areia e o incómodo vento de fim de tarde; há quem corajosamente recuse a leveza do resto do ano e mergulhe em profundidade, como se ler fosse semelhante a um desporto náutico; há quem nunca leia, e continue a não ler durante o verão, apesar do esforço inglório e breve a que se remetem nos primeiros dias de férias.

Pois bem, ler não implica uma pausa no pensamento - mas pode ser na acção; vi as melhores mentes da minha geração perderem-se nos meandros lodosos da acção, sem dedicarem um minuto que seja das suas vidas ao pensamento. A leitura deveria ser uma actividade laboral, um trabalho no intervalo da acção; de outro modo, a verdadeira acção. O ócio não é uma desistência; é uma entrega à sabedoria, e dessa forma à acção. E a leitura deve ser parte importante de um momento de ócio. A culpa, como em quase tudo, é dos cristãos. Mais exactamente, da maldita ética protestante, que valoriza o trabalho acima de tudo, considerando-o uma medida da bondade humana; e recusando o ócio como mola da acção, motor da produção humana. Os gregos, como sempre, estavam certos.

Por isso, recusar as férias como um tempo de leituras é a solução mais sensata; ler todo o ano, sobretudo no Verão, ou não. Sobretudo recusar a obrigação de ler isto ou aquilo, nesta ou naquela altura. Ler apenas. Enriquecer o ócio. O cálcio necessário para o intelecto. Produzir.

domingo, 22 de junho de 2008

A Terra Oca



A Terra Oca
Raymond Bernard
Editorial Minerva

Contracapa

Os homens interrogam-se nesta hora de pesquisa espacial acerca das muitas incógnitas do cosmos, quase sem se darem conta de que alguns dos maiores enigmas da Terra em que vivemos estão por desvendar ainda.

Certas questões a que a ciência não soube dar resposta satisfatória são tratadas nesta obra de Raymond Bernard, verdadeiro best-seller nos EUA, traduzida em várias línguas e que, agora, tão oportunamente sai a lume para satisfação dos leitores.

Chegará a teoria da força centrífuga para justificar o achatamento da Terra na região dos pólos? E qual a verdadeira causa desse estranho fenómeno observado na atmosfera, a aurora boreal? Onde, e como, se formam icebergues de água doce, por vezes gigantescos, que se encontram à deriva por oceanos salgados? Por que razão a bússola assume um comportamento tão anormal no extremo norte? Donde provêm as curiosas colorações verificadas nos desertos gelados do Antárctico?

Raymond Bernard responde-nos neste livro a estas e outras questões através das suas espantosas teorias. Alguns leitores sentir-se-ão, por certo, surpreendidos ou talvez chocados pelo arrojo das teses expostas, outros achá-las-ão absurdas ou até impossíveis.

De qualquer modo, as teorias desenvolvidas neste livro, como o afirma o editor americano, e o leitor poderá confirmar, apoiam-se em descobertas científicas, em factos comuns, e estão devidamente fundamentadas em referências e documentos dignos de todo o crédito. (…)



Este livro foi uma agradável surpresa! Conheço a vasta obra do seu homónimo Raymond Bernard, conhecido pelas obras dedicadas à Tradição e, por curiosidade, procurei esta obra que aborda um tema comum a ambos os autores: Agartha! Segundo o autor norte-americano, Agartha é o império subterrâneo constituido por milhões de habitantes onde na sua capital, Shamballah, governa o Rei do Mundo. Neste "mundo" não há morte nem velhice, todos os habitantes vivem em paz e plena comunhão, dizem-se descendente dos povos pré-dilúvicos vindos da Atlântida e da Lemúria.


Por muito que pareça, pela descrição anterior, um livro de ficção como "Viagem ao Centro da Terra" de Júlio Verne, este ensaio apoia-se em testemunhos claros de expedições aos pólos conduzidas por reconhecidos pesquisadores e cientistas.


A um preço bem acessível (p.v.p. 8 €), vale a pena ler e meditar sobre a realidade do nosso Universo, tão extenso e tão perto de nós.



sexta-feira, 13 de junho de 2008

Pastoral Americana


Para Philip Roth, a Pastoral Americana é o sonho do estrangeiro que olha para a América, e deseja-a, mais do que o sonho do americano de há muitas gerações; este, entrado numa decadência de séculos, olha para o outro com desconfiança, e por isso renega o que o outro deseja.
Roth escreve em regime de cínico louvor do american way of life, apoiado na distância do intelectual que vislumbrou a ruína de uma sociedade, tecendo desde o início uma teia de cumplicidades com o herói tragicómico do romance, o Sueco Levov, dedicando-lhe uma ode triunfal para a seguir o demolir sem piedade. Atenção, refiro-me a Roth, mas deveria estar a falar de Nathan Zuckerman, o narrador. Pouco interesse terá a semelhança biográfica; este narrador que emerge na (curtíssima) primeira parte do livro esconde-se na segunda, deixa que a figura de Levov ocupe o palco, e com ele toda uma geração que entrou em colapso a partir dos anos 60. Porque também se fala disso. Da revolução sexual que se transformou em revolução de costumes, e dos valores que foram substituídos na passagem de geração. E do Viename, sempre o Vietname.
A filha de Levov, Merry, criada (e termo mais correcto seria difícil de encontrar) com todo o conforto, compreensão, amada por pais perfeitos, ele o melhor atleta do liceu, ela quase Miss USA, Merry, cujo único defeito é uma gaguez que teima em não desaparecer, Merry, a obstinada e inteligente menina rica filha de um judeu e de uma católica (facto não dispiciendo para a compreensão da história), a filha perfeita que degenera e se torna terrorista, assassina, fugitiva e para sempre perdida. A reacção de Merry é mais do que rebeldia contra a figura paterna, e muito menos será uma consequência do pequeno erro cometido por Levov quando Merry tem doze anos, o beijo roubado exigido por uma filha apaixonada pelo pai. Merry simboliza todos os que vêem no governo dos E.U.A. o inimigo, e que contra ele decidiram levantar a sua revolta, personaliza no fundo aqueles que lutaram pelos direitos civis da população negra e contra a intervenção americana no mundo (Coreia, Vietname, América do Sul). Esta luta trágica ganha contornos edipianos; a América que permite a liberdade de manifestação, de protesto, vê-se ultrapassada pelos seus filhos. Estes não podem deixar de amar o país onde nasceram, ainda que gritem nas ruas o seu ódio ao capitalismo e ao imperalismo americano. Fábula? Quarenta anos depois, as premissas terão mudado? A incompreensão do sueco Levov perante os actos de Merry é um espelho da atitude da América em relação a si própria. O atentado de Timothy McVeigh, na mente de Roth ao escrever o romance, foi o primeiro sinal. O 11 de Setembro foi a inevitável conclusão deste processo de fuga para a frente, da recusa em reconhecer e compreender as causas dos fenómenos que aparecem como resposta ao domínio americano no mundo. Mas este tipo de especulação não pertence aqui.
A obra de Philip Roth possui um fôlego de epopeia, e nunca deixa o leitor descansado nas suas ideias. Noções maniqueístas são abandonadas, passa por aqui a grande virtude do livro. O grande herói americano, o sueco Levov, morre sem perceber o que o atingiu. A América, de olhos postos no mundo, ainda não acordou para a solidão que o poder traz. Também ela ainda não percebeu quem chocou contra o World Trade Center em 11 de Setembro de 2001. As ruínas erguem-se devagar.

Pastoral Americana, de Philip Roth. Editado pela Dom Quixote, traduzido (com algumas gralhas e erros evitáveis) por Maria João Delgado e Luisa Feijó.

(Versão revista de um texto inicialmente publicado no Arquivo Fantasma)

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Guerra

A caminho de casa, noite fria, inverno súbito antes de o podermos afirmar sem erro, folheio um livro acabado de me chegar às mãos, Guerra, de Harold Pinter. Confessado o desconhecimento da obra do prémio Nobel, decidira-me a colmatar a falha com a ajuda do que está disponível, começando pelo teatro. Fiquei com o sabor amargo da falta da representação. Como já aqui escrevi, teatro lido nunca foi coisa que gostasse, desde o 9ºano e do "Auto da Barca do Inferno". Mas a pulsão que se sente nos textos de Pinter é sólida, mesmo que não vista, ouvida ou sentida. Entretanto, a poesia. O conjunto de poemas reunidos nesta obra é limitado, compõe-se de curtas peças publicadas em revistas e jornais, sempre à volta do mesmo tema, a guerra. Desconfio da oportunidade desta edição (de 2003, a primeira, porque a presente reedição justifica-se pelo prémio atribuído) e pasmo perante os textos que leio. A saída deste livro pode ter duas explicações: a importância da sua obra dramatúrgica, e aquela que me parece menos digna de louvor, as suas posições políticas, de combate ao predomínio cultural americano e ao galgar de terreno do neo-liberalismo na sociedade contemporânea. Nos poemas que aparecem neste volume outra preocupação emerge, a causa anti-guerra, defendida de modo pouco pacífico (e pacifista). Pinter ataca a violência de guerras inaceitáveis, como é o caso da primeira e da segunda do Golfo, e escreve socorrendo-se de uma linguagem que por vezes é tão virulenta como aquilo que ataca, alardeando uma espécie de terrorismo linguístico anti-americano (primário, de acordo com alguns). Não discuto aqui a bondade dos pontos de vista de Pinter, mas fico perplexo com a denominação deste livrinho de quase uma vintena de poemas (e quase dez euros de preço): poesia, é isso? O empobrecimento da linguagem é radical, o léxico tem o nível do comum jargão de rua, o calão abunda, a repetição de temas e imagens é flagrante (e único) recurso do poeta. O efeito pretendido é óbvio, mas quem conhece as peças que Pinter escreveu estranha o despojamento, a secura, da poesia. Um exemplo, no português dos tradutores (três tradutores, três), Pedro Marques, Jorge Silva Melo e Francisco Frazão:

Futebol Americano
Uma reflexão sobre a Guerra do Golfo

Aleluia!
Funciona.
Rebentámos-lhes com aquela merda toda.

Rebentámos-lhes com a merda pelo cu acima
Até lhes sair pela porra das orelhas.

Funciona.
Rebentámos-lhes até com a merda.

Eles sufocaram na própria merda!

Aleluia.
O Senhor seja louvado por todas as coisas boas.

Desfizemos aquela porra toda em merda.
Estão a comê-la.

O Senhor seja louvado por todas as coisas boas.

Rebentámos-lhes os tomates em estilhaços de pó,
Na porra de estilhaços de pó.

Conseguimos.
Agora quero que venhas aqui e me beijes na boca.

São apenas nove poemas e um discurso proferido no seu doutoramento honoris causa, em 2002, quando os E.U.A e o Reino Unido se preparavam para invadir o Iraque. A retórica anti-guerra é inevitável, apenas se deve admirar o facto de Pinter ter escrito este discurso inflamado numa ocasião que devia ser de consagração. Mas a atitude rebelde, anti-establishment, não me parece ser razão válida para o elogio desta pobre súmula de poemas anti-qualquer coisa. Os quase dez euros que o livro custa (a mim, felizmente, ofereceram-mo) são pornográficos.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Assírio

A Assírio & Alvim também criou um blogue; a acompanhar daqui para a frente, esperando que surjam textos mais personalizados sobre os (excelentes) livros que publicam.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

O Romance da Múmia

Théophile Gautier

Zéfiro

Théophile Gautier é praticamente desconhecido em Portugal.
Nascido no início do Século XIX, foi amigo de Victor Hugo, Balzac, Gerard de Nerval, Alexandre Dumas, entre outros. Levou uma vida extravagante e boémia, como nos diz Luís Filipe Sarmento na sua nota introdutória, e o Petit Cenacle, grupo de intelectuais do qual fazia parte, dedicava-se, entre outras actividades, à experimentação de drogas, principalmente haxixe. Não será de estranhar, então, que a outra obra traduzida para português deste autor seja O Clube de Fumadores de Haxixe, editada pela 101 Noites.
Mas, este Romance da Múmia é uma obra em que não transparece essa vida excêntrica e extravagante. Pelo contrário, é uma obra-prima, reveladora de um cuidado extremo, de um trabalho extenuante e de um talento invulgar.
O Romance da Múmia não conta uma história, mas sim três histórias distintas, mas que se interligam.
Primeiramente, ficamos a conhecer o Lord Evandale que «era um desses jovens ingleses em tudo irrepreensíveis», que está acompanhado de Rumphius, um egiptólogo experiente, aos quais se junta Argynopoulos, um astuto grego empreiteiro de escavações que «se fizesse falta vendia novo por falta de velho». Os três realizam uma «descoberta inestimável»: um sarcófago riquíssimo, um sarcófago inviolado. Ao contrário das suas expectativas iniciais, não se trata da múmia de um homem, como seria de esperar, mas sim a de uma mulher: Tahoser. Tahoser subiu ao trono dos Faraós, governou o Egipto e sua biografia está inscrita num pergaminho que a acompanhou na sua última viagem…
Assim, a segunda história que esta obra nos conta é a de Tahoser; uma história de amor, do mais puro amor.
Bem ao estilo das obras clássicas, Tahoser é descrita como uma mulher belíssima, sem qualquer reparo, de feições e formas sublimes, e vivendo no mais absoluto luxo, rodeada de donzelas que a serviam e que satisfaziam todos os seus caprichos. Tahoser, filha do sacerdote Petamunoph, amava Poeri, um jovem israelita, e por ele cometeu os maiores despropósitos.
Contudo, o Faraó amava Tahoser. E o Faraó, habituado que estava a ter tudo aquilo que desejava, quis ter Tahoser a seu lado. Quando Tahoser finalmente conseguiu chegar ao coração de Poeri, ainda que dividindo o seu amor com Ra’hel, que o Faraó a resgatou e a obrigou a ficar a seu lado…
É nesta altura que Gautier decide (re)contar-nos outra história; a história de Mosché, isto é, de Moisés e da libertação e êxodo do povo hebreu do Egipto. Relembra-nos as peripécias que antecederam o êxodo: as águas ensanguentadas, as pragas e as mortes dos primogénitos, culminando na separação do «Mar das Algas»…
Escrita de uma forma irrepreensível, com discrições minuciosas, que revelam um estudo profundo das tradições egípcias, e com três histórias singelas e, em certa medida, absolutamente previsíveis, esta obra remete-nos para a mais pura Literatura, para o Grande Romance, em que mais importante do que contar uma história é a forma como esta é contada.
Sem dúvida, um clássico que fazia falta no nosso panorama editorial. Parabéns à Zéfiro!

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Intersecções

O escritor que mais se aproxima da verdade é aquele que prefere esquecer a escrita. Será necessário colocar a questão? Porquê? Susan Sontag achava que os escritores que assim procedem são movidos por um instinto que acaba por ser criativo. No seu silêncio, cumprem a obra. As palavras de Blanchot, circulares, respondem ao apelo de Sontag: "A essência da literatura é o desaparecimento". Será então a criação uma desistência activa, uma recusa metafísica, um gesto que simula a ausência de gesto, o não-gesto. A constatação desta verdade é aterradora. Um silêncio que questiona directamente os que ainda não se calaram. A perturbação que a personagem de Melville, Bartleby, provoca na superfície estagnada do mundo é imprevisível. "Prefiro não o fazer". A história desliza então para um final aberto, para sempre perdida nas mãos do leitor.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

A ceifeira

É quase sempre difícil distinguir o autor da obra. Não se lê desconhecendo completamente a biografia do autor e é quase inevitável que a leitura do texto seja condicionada pelo conhecimento que temos da sua vida.

A biografia não passa de uma sequência de datas e acontecimentos. Separo as duas noções porque raramente coincidem. O autor nasce, vive (e casa-se ou não, morre-lhe alguém ou não, completa a universidade ou não); e morre. Mas se falamos de acontecimentos, falamos de outra coisa. Da obra. Por alguém morrer, o autor mergulha na depressão e muda completamente o seu estilo. Cresceu na sombra de uma mãe protectora: escreverá de determinado modo. A História sofre convulsões que lhe dificultam a vida: o autor contraria a História e cria contra ela.

Falando de biografia: os autores que morrem novos são sempre lamentados a dobrar. Porque a empatia gerada com o leitor simula uma familiariedade postiça, o leitor chora o autor que morre como se fosse um dos seus. Porque o autor desaparece demasiado cedo, cisma-se na obra que ficou por criar, sonha-se com uma arca cheia de inéditos que possam alimentar a fome que se segue ao desaparecimento, inventariam-se conjecturas sobre o rumo que a obra por criar poderia ter tomado.

O leitor precisa destas consolações na sua relação com os autores de quem gosta. Não aprecia o rigor do académico, capaz de analisar friamente a obra desligada da vida. A biografia não é apenas um conjunto de circunstâncias sem relação com os livros. Acabe-se com as datas; obtém-se o chão onde a obra germina, o intervalo no tempo delimitando a marca do escritor na terra.

Não carecemos de adivinhações sobre obras inacabadas. Mas não podemos recusar o apelo da intimidade forçada. Ao ler um livro, convidamos para junto de nós quem o escreve. Esperando que o arrependimento não surja. Mais do que podemos desejar na relação com os outros. Vantagens de uma existência de papel.

(Texto publicado originalmente no Auto-retrato)

sexta-feira, 4 de abril de 2008

A arte de ver

Não é raro, ao ler um romance, darmos por nós a imaginar como seria aquela história adaptada para o ecrã, grande ou pequeno; mais justo para o escritor seria guardarmos aquela história e não pensar sequer em outro autor a refazer as palavras escritas.
Um realizador trai sempre uma história, trai sempre as palavras do escritor. Há casos de adaptações feitas pelos próprios escritores, casos de escritores que se tornam realizadores. Marguerite Duras, Samuel Beckett, William Faulkner a trabalhar como argumentista de filmes que adaptavam obras de autores que, aparentemente, estavam nos antípodas da sua própria obra escrita, como Raymond Chandler (Big Sleep) ou Ernest Hemingway (To Have and To Have Not), tudo exemplos de gente ilustre que dedicou parte do seu tempo e dos seus esforços ao cinema. Mas é um facto aceite que os grandes filmes da história do cinema raramente nascem de grandes obras literárias; a linguagem cinematográfica funda-se em valores diferentes da linguagem literária. Quando um texto escrito é transformado em imagens, as perdas e os ganhos tornam o resultado final um objecto em tudo distante do original. Por razões estruturais - a existência de dois planos narrativos paralelos, o falado e o filmado - ou por razões que têm que ver com decisões do realizador, necessariamente diferentes das decisões do escritor, o filme nunca poderá traduzir fielmente tudo o que um romance diz. Será discutível afirmar que a riqueza da palavra escrita, que permite infinitas interpretações do texto, se sobrepõe à linearidade plana das imagens em movimento; as grandes obras cinematográficas são tão ricas em conteúdo e na forma como a melhor das obras de ficção escrita. Mas a verdade é que existe algo que as imagens nunca produzem: as aliterações, as metáforas, a maravilhosa riqueza linguística que um estilista da língua consegue produzir. O prazer do texto, de acordo com Roland Barthes, não nasce apenas da descodificação da palavra do autor; há grandes ideias que surgem como resultado do simples processo de ler um texto escrito de forma exemplar. E quanto mais complexo e denso é um texto mais ideias dele se podem extrair. Reduzir um romance ou um conto apenas à história que é contada é um erro em que não devemos incorrer.
Mas, é verdade, há quem escreva de uma forma cinematográfica. Será impossível alguma vez realizar um filme que se aproxime sequer do génio de Beckett, por exemplo, um autor que vive da força da linguagem. Ninguém conseguiu ainda fazer uma obra minimamente decente que adapte Kafka (apesar do esforço de Orson Welles em O Processo). Mas reinventar histórias medíocres, como Hitchcock fez tantas vezes, é um caminho fácil; e, ao mesmo tempo, espinhoso. O génio de Hitchcock reside na extraordinária expressividade dos pormenores puramente cinematográficos; as histórias eram um pretexto para a invenção, para a ostentação de uma mestria técnica invejável.
Mais recentemente, os irmãos Cohen fizeram o óbvio: adaptaram um texto que é quase um guião, Este País Não é Para Velhos. O estilo de McCarthy, seco, sincopado, com indicações de cena cinematográficas, presta-se a isto. Mas havia exemplos anteriores de romances de McCarthy tornados obras medianas, discretas; refiro-me a Belos Cavalos, realizado por Billy Bob Thornton em modo de completo desperdício: as paisagens, o deserto, a violência, tudo serviu para um filme que chega a ser um pastelão romântico.
A verdade é que o filme dos Cohen é uma obra-prima, por razões que vão muito além da riqueza do texto de McCarthy. A história é nada, tudo depende do olhar do cineasta. Os cenários imaginados partem sempre de um ponto interior, a imaginação do artista. E neste ponto, escritor e realizador aproximam-se: ambos criam imagens; o primeiro descobre-as através de palavras; o segundo persegue-as com uma câmara. Ramos divergentes da mesma árvore do conhecimento.

Nota: as imagens são de retiradas do filme de Alain Resnais que adapta um texto de Alain Robbe-Grillet, O Último Ano Em Marienbad. Um exemplo de uma adaptação que capta na totalidade uma ideia do texto. Como filmar a percepção individual do tempo.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Nomeação

O Arte de Ler foi nomeado para os Prémios BLiBiE, na categoria de Melhor Blogue de Livros (Leitores ou Autores).
Pela quantidade de comentários de bloggers a sugerir os seus próprios blogues, saber que este nosso foi notado e não procurou fazer-se notar, é já para nós uma vitória...

quarta-feira, 26 de março de 2008

Memória de um sonho

Neste assunto da memória, apenas posso confiar, verdadeiramente, naquela que tenho. E a que tenho lembra-se de apagar dos seus arquivos factos que, na altura em que sucederam, foram marcantes.
Em questões de livros, por exemplo, a minha memória assemelha-se, não tanto a um queijo suíço, mas a um pântano pejado de charcos onde estagnam todas as obras marcantes da primeira fase da idade adulta. A verdade é esta: recordo melhor os livros que lia aos 11 anos do que aqueles que li naquele período nebuloso entre os 16 e os 25 anos. Clarificando: tenho os livros nas prateleiras, passo os dedos por eles, e de cada vez que isso acontece, lembro-me vagamente da história, da época em que o comprei, com sorte do local onde o encontrei (em grande parte dos casos, nas minhas incursões pela Feira do Livro). Mas na realidade muitos dos que li não se fixaram, não deixaram cicatriz visível no passado. Por outro lado, ainda me lembro de muitas histórias d'Os Cinco, de todos os livros do Julio Verne, de todos os romances de Agatha Christie que li; apesar de não ter os livros - vivi numa aldeia, e passei a minha infância e adolescência a requisitar livros a bibliotecas escolares, municipais, e a uma carrinha da Gulbenkian que, uma vez por mês, passava pelo centro da aldeia e ali ficava parada durante o tempo suficiente para que a meia-dúzia de leitores renovasse requisições ou escolhesse livros novos. Talvez a selectividade da memória tenha apenas a ver com a construção da infância, o lugar idílico perdido no tempo. Ou então a nostalgia acolhe apenas as raridades, as singularidades de uma vida. E ler, para quem cresceu numa casa sem livros, era um acontecimento, porque não dizê-lo, e caindo no sentimentalismo, mágico.
Portanto, não me perguntem sobre as minhas obras-primas da década dos vinte, quando o gosto se começava a sedimentar; as fundações do leitor que sou vão mais fundo, ao tempo da biblioteca itinerante da Gulbenkian. Ao tempo em que fiquei com dois livros requisitados para sempre (nunca os devolvi). Não sei onde estão agora esses livros (talvez ainda sobrevivam nos escolhos da casa de infância); mas lembro-me muito bem de quais eram, tantas foram as vezes que os li, na falta de outras obras - um chamava-se Grandes Exploradores, e era uma série de mini-biografias de aventureiros de sempre, piratas e marinheiros, exploradores do Ártico e aviadores. O outro era um livro de histórias sobrenaturais, relatos de desaparecimentos no Triângulo das Bermudas e aparições do Holandês Voador, visões de fantasmas e esqueletos que mudavam de lugar.
Apesar de não os ter nas minhas estantes, a memória encarregou-se de os tornar mais reais que muitos que agora observo; um livro é tudo o que está para lá das páginas.

A ler

Um excelente texto de Osvaldo Manuel Silvestre sobre capas (a primeira máscara de um livro) no blogue Os Livros Ardem Mal.

terça-feira, 18 de março de 2008

O Crocodilo Que Voa

Quando, a determinada altura, o entrevistador pergunta a Luiz Pacheco se valeu a pena, ele responde:

- Se valeu a pena?!... O que é que eu posso dizer a isso?... Foi como foi.

Não sei que resposta o entrevistador esperava; foi como foi. Há quem se atreva a dizer: foi bom, vivi tudo, vou feliz. Há quem arrisque: tenho medo, lamento que tenha medo, perdi a coragem que a vida me foi dando. A empáfia da personalidade que se vai sem arrependimentos apenas se perdoa se aceitarmos o natural orgulho humano; ninguém gosta de admitir que perdeu.
O que perdeu Luiz Pacheco? Nada. Qual o interesse de reunir em livro um conjunto de entrevistas que abarca o último quarto de vida do escritor libertino? Tanto do ponto de vista do leitor cusco como do autor, todo. Luiz Pacheco foi um malabarista da vida. Dançava para um público atento e atencioso, dava-se ares de ser mais do que era, ou menos do que parecia ser. A sua vida oscilou entre a decadência e a glória, mas é certo que teve mais da primeira do que da segunda. Ele tirava gozo de falar, de se expor, de confessar, de provocar, e sobretudo de se arrepender do que disse. No livro em questão, O Crocodilo que Voa, são inúmeras as vezes que lhe perguntam: disse isto antes, é verdade?, como que para confirmar o escândalo, a pouca-vergonha; sobre sexo, quase sempre, e a má-língua, que também acaba por ser uma espécie de coito interrompido. Ele responde invariavelmente: eh, pá, isso não, nem pensar, exageram. Mas nunca desmente. O jogo era este, e desde a célebre entrevista dada à Kapa em 1992 até à sua morte, foi assim. A última entrevista, de resto, publicada postumamente no SOL, é uma exemplar lástima. O aproveitamento do entrevistador é penoso, o sofrimento em directo do escritor é lamentável.
Sobretudo, ler de fio a pavio o livro organizado por João Pedro George cansa. Pela repetição das histórias, pela insistência nos temas, pelo constante repisar de provocações, a cabra, a puta a fazer o pino, os magalas, etc.
O que adianta isto então à obra de Luiz Pacheco? Nada. Nada acrescenta ao brilho intermitente da sua prosa, a verve pontual ancorada no real que foi marca do que escreveu. Admito que, enquanto as entrevistas foram sendo publicadas na imprensa - a primeira que li foi feita pela Cláudia Galhós para o Blitz, na célebre sessão fotográfica com o velho vestido de Pai Natal, involuntário palhaço da geração rasca que lia o jornal - celebrava com júbilo não disfarçado cada aparição da figura. Agora, vistas as coisas em letra de forma, impressas e bem encadernadas, resta nada. Apesar do esforço do prefácio, do artesanato impecável do objecto livro, da tentativa (um cínico diria vampirismo, o Pacheco vociferaria chupismo) de divulgar junto de um público alargado a obra do último (e mais iconoclasta) representante de uma época que se finou há muito.
No fundo, ouvíamos (lendo) as patacoadas do Pacheco como se ouve o louco do bairro. Aquela história da sabedoria brotar dos sítios mais improváveis não anda longe disto. A telenovela do intelectual com pretensões anarquistas; deixemos o livro de lado e peguemos no que escreveu. A vida fora da vida. O que interessa.

(O Crocodilo Que Voa - entrevistas a Luiz Pacheco, organizadas por João Pedro George, ed. Tinta da China)

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Dom Frei Gedeão, templário


Dom Frei Gedeão, templário
Mário Simões Dias
Edições de autor 2001

Trata-se de um livro bastante curioso, e difícil de encontrar dado ser uma edição de autor. O que é pena, pois um livro tão bem escrito merece outro protagonismo digno da sua simplicidade e beleza de escrita. Ora, trata-se de um breve conto histórico passado no limiar fronteiriço entre os reinos de Portugal e Leão, mais propriamente em Vilar Maior, castelo templário desconhecido de muitos. Como já referi, trata-se de um texto que prima por uma grande simplicidade e acessibilidade de leitura, cativante e instrutivo ao nível histórico, pois o autor teve o cuidado de referir em notas para auxilio do leitor.

Sem dúvida um pequeno Grande Livro.

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