terça-feira, 9 de setembro de 2008
Deaf Sentence
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segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Direito de Resposta
Após uma amistosa troca de e-mails com o Prof. Joaquim Fernandes, após o meu post aqui no Arte de Ler sobre o seu romance O Cavaleiro da Ilha do Corvo, o autor aceitou o desafio de escrever um texto como “resposta” à minha recensão crítica da sua obra. Eis o texto:
Ficção e Realidade da “Estátua Do Corvo”
O objectivo do meu romance O Cavaleiro da Ilha do Corvo não foi produzir obra-prima ficcional, mas sim colocar à disposição dos leitores, pela primeira vez sobre a matéria, um painel documental documentado sobre a hipótese da verosimilhança da polémica estátua corvina. Sendo antes de mais historiador procurei atestar essa competência na confortável bibliografia, reunida ao longo de mais uma década, com intermitências, e exposta no final da obra. Sinceramente, nunca me preocupei com o modelo do “Codigo da Vinci”, ainda que logicamente o “esqueleto” ficcional da obra o torne comparável. Mas aqui nem pretendi ser original: bastou-me o insólito do acervo documental, ignorado pela generalidade dos leitores – incluindo muitos colegas académicos – para superar as eventuais fraquezas do enredo.
O importante é mesmo correlacionar a descrição de Damião de Góis, os nomes, datas e detalhes que me fazem crer – a mim a outros muito mais notórios investigadores, como o açoriano
Por outro lado, Damião de Góis é creditado pela descrição do primeiro rinoceronte visto em Lisboa; mas já é suspeito de ingénuo por aceitar relatos fabulosos de marinheiros...Em que é que ficamos?
O problema não é acreditar ou não em tritões, mesmo pela pena de Damião de Góis, mas aceitar que o cruzamento de todas as pistas elencadas na obra se completam reforçando a credibilidade do testemunho do cronista, referido na primeira pessoa – assinale-se.
Certamente que o arquitecto régio Duarte Darmas não é lenda, que o pedreiro do Porto, o donatário Pedro da Fonseca, a data de 1529, a legenda não-latina, etc., etc. também não são propriamente elementos que constem habitualmente de um relato vago, lendário. Então, os relatos da historiografia árabe e o mapa dos Pizzigani, de 1367, com referências explícitas às “estátuas-marco”, deixam muitas incógnitas no ar...
Sabe-se, no fundo, que existe aquela reacção inconsciente da nossa pretensa superioridade cultural, do eurocentrismo, que impede os nossos olhos de ver, com a luz da inteligência, os documentos disponíveis. Como explicar ao vulgo que, por exemplo, dois mil anos antes de Vasco da Gama, os Cartagineses deram a volta à África em sentido contrário da rota do nauta português? Não consta que tivessem defrontado o Adamastor, aliás figura recorrente usada pelas talassocracias marítimas para assustar a concorrência... E Portugal não fugiu à regra.
O que tentei fazer no meu despretensioso “romance” (modalidade por que optei em lugar de um porventura maçador ensaio) foi colectar e oferecer aos leitores “comuns” toda a informação disponível sobre o tema – que considero fascinante e tem ligações, como se sabe, a toda uma tradição do imaginário ocidental atlântico e “atlântido”, onde se fundem literatura e história. Sou contra todos os preconceitos de ordem cultural, do tipo “antes de nós o Dilúvio” que fez o nosso grande vate, num atitude patriótica, exaltante, “decretar” o silêncio da “antiga musa” e que os mares eram virgens até nós, por inspiração e escolha divina, termos desfraldado as velas. Piedosas “boutades”, típicas de uma consciência nacional em fim de ciclo e crise identitária, como sucedeu noutras épocas e noutras paragens.
Não se trata aqui de um “campeonato” entre portugueses e fenícios ou cartagineses ou outros, mas sim de uma problematização de um assunto, que foi muito discutido no século XIX e inícios do XX entre nós.
Se nos habituarmos a ver o génio nacional das Descobertas Modernas como parte de uma cadeia de aquisições sucessivas pela Humanidade, talvez possamos perceber uma nova visão da História evolutiva da nossa espécie.
Com os cordiais cumprimentos,
Joaquim Fernandes
Universidade Fernando Pessoa
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quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Mozart - O Supremo Mago
Confesso que sou um Mozartiano! Várias vezes olhei para a capa deste livro mas nunca achei curiosidade em lê-lo, quanto mais abordando assuntos que pouco me "despertam".
No entanto, procurando uma leitura para romancear o meu Verão encontrei o livro a um excelente preço (10€) e decidi finalmente ler. Já conhecia a obra do egiptólogo Christian Jacq, do qual sou admirador da forma como transmite os seus ensinamentos, de leitura simples, algo romanceada, mas fidedigna na precisão histórica.
Christian Jacq conseguiu transmitir tudo isto em Mozart - O Supremo Mago. Foi muito mais além, conseguiu enquadrar a Vida e Obra do compositor, recorrendo às cartas entre Wolfgang e Leopold Mozart, bem como a documentos historicos referente às diversas sociedades "secretas" existentes ou conhecidas na altura.
Este é sem dúvida um excelente livro, uma merecida homenagem ao Compositor de Deus, uma óptima leitura a acompanhar pela sua sublime criação.
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Hotel Memória
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segunda-feira, 25 de agosto de 2008
A ler
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quarta-feira, 20 de agosto de 2008
O Cavaleiro da Ilha do Corvo
Joaquim Fernandes
Círculo de Leitores / Temas e Debates
Confesso que não estava nos meus planos fazê-lo, mas o Amigo
Primeiramente, pensei que não iria gostar do livro devido à forma, isto é, ao estilo da escrita. Contudo, não se pode dizer que o livro esteja mal escrito. Apesar de se tratar do primeiro romance do autor, nota-se que domina já algumas técnicas básicas do género ficcional e o livro até se lê bem.
Claro está que a colagem ao ainda famoso Código da Vinci é evidente – O Cavaleiro da Ilha do Corvo é uma tentativa descarada de fazer um Código da Vinci à portuguesa. As semelhanças são indiscutíveis: um “casal” de protagonistas, sendo que o personagem masculino é também um professor universitário; uma “sociedade secreta” que procura a todo o custo que não se conheça a “verdade”; um sábio idoso, auxiliado por um mordomo, mas que desta feita não é o “mau da fita”; aventuras e peripécias várias ao longo do livro, mas num estilo muito mais “pausado” quando comparado com o Código.
Mas, tal como no Código da Vinci, também aqui estamos na presença de uma conjectura que não chega a teorema. Isto é, por muitas voltas que o autor dê, por muitas ideias que apresente e por muito que se esforce para que tudo faça sentido, o certo é que as bases são pouco sólidas. Essencialmente, o romance anda à volta de uma hipotética estátua encontrada pelos navegadores portugueses na Ilha do Corvo, decorria o reinado de D. Manuel I e que, juntamente com outros achados, provaria que as ilhas haviam sido descobertas muitos séculos antes dos navegadores portugueses. A descrição desta estátua é feita por Damião de Góis, o que, para o autor, é suficiente como garantia de veracidade. Ou seja, Damião de Góis é, para o autor, uma fonte autorizada e irrefutável. Contudo, e apesar de termos em grande conta o prestigiado humanista português, temos de relembrar que é o mesmo Damião de Góis que dedica várias linhas na sua Descrição da Cidade de Lisboa à existência de tritões, nereidas e sereias nas águas limítrofes à cidade. Apesar de não emitir qualquer parecer, é evidente, pela leitura das suas palavras, que não descarta a hipótese e até, pelo contrário, dá a entender que acredita na existência desses míticos seres. Assim, poderíamos dizer que a acreditar em tudo o que Damião de Góis escreveu, deveríamos também acreditar na existência de tritões, nereidas e sereias nas águas e grutas da costa portuguesa…
Mas não é só neste aspecto que o livro é pouco consistente; alguns erros grosseiros, como aquele que o nosso Amigo
Ainda assim, trata-se de um livro que satisfaz bastante, enquanto obra de ficção, pois tem um enredo bem encadeado e cativante.
Contudo, como dissemos acima, a conjectura não passa a teorema. Se fosse esse o caso, o autor teria escrito um ensaio e não uma obra de ficção. Este livro padece da mesma enfermidade do Código da Vinci – pretende apresentar uma teoria nova, escondida pelas entidades e instituições instaladas e que pode revolucionar a forma como vemos o Mundo, mas não passa de teoria com demasiadas falhas para ser aceite unanimemente.
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domingo, 3 de agosto de 2008
Verão
Há quem guarde para o Verão as leituras extensas, os tijolos para os quais não teve paciência, nem tempo, para ler durante o resto do ano. Há quem comece livros e nunca os termine; há quem os abandone logo no início e os substitua por algo mais leve, digamos, como se a leveza fosse uma qualidade material e não um ponto de vista. Há quem escolha policiais, porque vão bem com a praia e as esplanadas, as gotas de suor sobre a areia e o incómodo vento de fim de tarde; há quem corajosamente recuse a leveza do resto do ano e mergulhe em profundidade, como se ler fosse semelhante a um desporto náutico; há quem nunca leia, e continue a não ler durante o verão, apesar do esforço inglório e breve a que se remetem nos primeiros dias de férias.Pois bem, ler não implica uma pausa no pensamento - mas pode ser na acção; vi as melhores mentes da minha geração perderem-se nos meandros lodosos da acção, sem dedicarem um minuto que seja das suas vidas ao pensamento. A leitura deveria ser uma actividade laboral, um trabalho no intervalo da acção; de outro modo, a verdadeira acção. O ócio não é uma desistência; é uma entrega à sabedoria, e dessa forma à acção. E a leitura deve ser parte importante de um momento de ócio. A culpa, como em quase tudo, é dos cristãos. Mais exactamente, da maldita ética protestante, que valoriza o trabalho acima de tudo, considerando-o uma medida da bondade humana; e recusando o ócio como mola da acção, motor da produção humana. Os gregos, como sempre, estavam certos.
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domingo, 22 de junho de 2008
A Terra Oca

A Terra Oca
Raymond Bernard
Editorial Minerva
Contracapa
Os homens interrogam-se nesta hora de pesquisa espacial acerca das muitas incógnitas do cosmos, quase sem se darem conta de que alguns dos maiores enigmas da Terra em que vivemos estão por desvendar ainda.
Certas questões a que a ciência não soube dar resposta satisfatória são tratadas nesta obra de Raymond Bernard, verdadeiro best-seller nos EUA, traduzida em várias línguas e que, agora, tão oportunamente sai a lume para satisfação dos leitores.
Chegará a teoria da força centrífuga para justificar o achatamento da Terra na região dos pólos? E qual a verdadeira causa desse estranho fenómeno observado na atmosfera, a aurora boreal? Onde, e como, se formam icebergues de água doce, por vezes gigantescos, que se encontram à deriva por oceanos salgados? Por que razão a bússola assume um comportamento tão anormal no extremo norte? Donde provêm as curiosas colorações verificadas nos desertos gelados do Antárctico?
Raymond Bernard responde-nos neste livro a estas e outras questões através das suas espantosas teorias. Alguns leitores sentir-se-ão, por certo, surpreendidos ou talvez chocados pelo arrojo das teses expostas, outros achá-las-ão absurdas ou até impossíveis.
De qualquer modo, as teorias desenvolvidas neste livro, como o afirma o editor americano, e o leitor poderá confirmar, apoiam-se em descobertas científicas, em factos comuns, e estão devidamente fundamentadas em referências e documentos dignos de todo o crédito. (…)
Este livro foi uma agradável surpresa! Conheço a vasta obra do seu homónimo Raymond Bernard, conhecido pelas obras dedicadas à Tradição e, por curiosidade, procurei esta obra que aborda um tema comum a ambos os autores: Agartha! Segundo o autor norte-americano, Agartha é o império subterrâneo constituido por milhões de habitantes onde na sua capital, Shamballah, governa o Rei do Mundo. Neste "mundo" não há morte nem velhice, todos os habitantes vivem em paz e plena comunhão, dizem-se descendente dos povos pré-dilúvicos vindos da Atlântida e da Lemúria.
Por muito que pareça, pela descrição anterior, um livro de ficção como "Viagem ao Centro da Terra" de Júlio Verne, este ensaio apoia-se em testemunhos claros de expedições aos pólos conduzidas por reconhecidos pesquisadores e cientistas.
A um preço bem acessível (p.v.p. 8 €), vale a pena ler e meditar sobre a realidade do nosso Universo, tão extenso e tão perto de nós.
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Francisco Canelas de Melo
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sexta-feira, 13 de junho de 2008
Pastoral Americana

Roth escreve em regime de cínico louvor do american way of life, apoiado na distância do intelectual que vislumbrou a ruína de uma sociedade, tecendo desde o início uma teia de cumplicidades com o herói tragicómico do romance, o Sueco Levov, dedicando-lhe uma ode triunfal para a seguir o demolir sem piedade. Atenção, refiro-me a Roth, mas deveria estar a falar de Nathan Zuckerman, o narrador. Pouco interesse terá a semelhança biográfica; este narrador que emerge na (curtíssima) primeira parte do livro esconde-se na segunda, deixa que a figura de Levov ocupe o palco, e com ele toda uma geração que entrou em colapso a partir dos anos 60. Porque também se fala disso. Da revolução sexual que se transformou em revolução de costumes, e dos valores que foram substituídos na passagem de geração. E do Viename, sempre o Vietname.
A filha de Levov, Merry, criada (e termo mais correcto seria difícil de encontrar) com todo o conforto, compreensão, amada por pais perfeitos, ele o melhor atleta do liceu, ela quase Miss USA, Merry, cujo único defeito é uma gaguez que teima em não desaparecer, Merry, a obstinada e inteligente menina rica filha de um judeu e de uma católica (facto não dispiciendo para a compreensão da história), a filha perfeita que degenera e se torna terrorista, assassina, fugitiva e para sempre perdida. A reacção de Merry é mais do que rebeldia contra a figura paterna, e muito menos será uma consequência do pequeno erro cometido por Levov quando Merry tem doze anos, o beijo roubado exigido por uma filha apaixonada pelo pai. Merry simboliza todos os que vêem no governo dos E.U.A. o inimigo, e que contra ele decidiram levantar a sua revolta, personaliza no fundo aqueles que lutaram pelos direitos civis da população negra e contra a intervenção americana no mundo (Coreia, Vietname, América do Sul). Esta luta trágica ganha contornos edipianos; a América que permite a liberdade de manifestação, de protesto, vê-se ultrapassada pelos seus filhos. Estes não podem deixar de amar o país onde nasceram, ainda que gritem nas ruas o seu ódio ao capitalismo e ao imperalismo americano. Fábula? Quarenta anos depois, as premissas terão mudado? A incompreensão do sueco Levov perante os actos de Merry é um espelho da atitude da América em relação a si própria. O atentado de Timothy McVeigh, na mente de Roth ao escrever o romance, foi o primeiro sinal. O 11 de Setembro foi a inevitável conclusão deste processo de fuga para a frente, da recusa em reconhecer e compreender as causas dos fenómenos que aparecem como resposta ao domínio americano no mundo. Mas este tipo de especulação não pertence aqui.
A obra de Philip Roth possui um fôlego de epopeia, e nunca deixa o leitor descansado nas suas ideias. Noções maniqueístas são abandonadas, passa por aqui a grande virtude do livro. O grande herói americano, o sueco Levov, morre sem perceber o que o atingiu. A América, de olhos postos no mundo, ainda não acordou para a solidão que o poder traz. Também ela ainda não percebeu quem chocou contra o World Trade Center em 11 de Setembro de 2001. As ruínas erguem-se devagar.
Pastoral Americana, de Philip Roth. Editado pela Dom Quixote, traduzido (com algumas gralhas e erros evitáveis) por Maria João Delgado e Luisa Feijó.
(Versão revista de um texto inicialmente publicado no Arquivo Fantasma)
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quinta-feira, 5 de junho de 2008
Guerra
A caminho de casa, noite fria, inverno súbito antes de o podermos afirmar sem erro, folheio um livro acabado de me chegar às mãos, Guerra, de Harold Pinter. Confessado o desconhecimento da obra do prémio Nobel, decidira-me a colmatar a falha com a ajuda do que está disponível, começando pelo teatro. Fiquei com o sabor amargo da falta da representação. Como já aqui escrevi, teatro lido nunca foi coisa que gostasse, desde o 9ºano e do "Auto da Barca do Inferno". Mas a pulsão que se sente nos textos de Pinter é sólida, mesmo que não vista, ouvida ou sentida. Entretanto, a poesia. O conjunto de poemas reunidos nesta obra é limitado, compõe-se de curtas peças publicadas em revistas e jornais, sempre à volta do mesmo tema, a guerra. Desconfio da oportunidade desta edição (de 2003, a primeira, porque a presente reedição justifica-se pelo prémio atribuído) e pasmo perante os textos que leio. A saída deste livro pode ter duas explicações: a importância da sua obra dramatúrgica, e aquela que me parece menos digna de louvor, as suas posições políticas, de combate ao predomínio cultural americano e ao galgar de terreno do neo-liberalismo na sociedade contemporânea. Nos poemas que aparecem neste volume outra preocupação emerge, a causa anti-guerra, defendida de modo pouco pacífico (e pacifista). Pinter ataca a violência de guerras inaceitáveis, como é o caso da primeira e da segunda do Golfo, e escreve socorrendo-se de uma linguagem que por vezes é tão virulenta como aquilo que ataca, alardeando uma espécie de terrorismo linguístico anti-americano (primário, de acordo com alguns). Não discuto aqui a bondade dos pontos de vista de Pinter, mas fico perplexo com a denominação deste livrinho de quase uma vintena de poemas (e quase dez euros de preço): poesia, é isso? O empobrecimento da linguagem é radical, o léxico tem o nível do comum jargão de rua, o calão abunda, a repetição de temas e imagens é flagrante (e único) recurso do poeta. O efeito pretendido é óbvio, mas quem conhece as peças que Pinter escreveu estranha o despojamento, a secura, da poesia. Um exemplo, no português dos tradutores (três tradutores, três), Pedro Marques, Jorge Silva Melo e Francisco Frazão: Futebol Americano
Aleluia!
Rebentámos-lhes com a merda pelo cu acima
Funciona.
Eles sufocaram na própria merda!
Aleluia.
Desfizemos aquela porra toda em merda.
O Senhor seja louvado por todas as coisas boas.
Rebentámos-lhes os tomates em estilhaços de pó,
Conseguimos.
São apenas nove poemas e um discurso proferido no seu doutoramento honoris causa, em 2002, quando os E.U.A e o Reino Unido se preparavam para invadir o Iraque. A retórica anti-guerra é inevitável, apenas se deve admirar o facto de Pinter ter escrito este discurso inflamado numa ocasião que devia ser de consagração. Mas a atitude rebelde, anti-establishment, não me parece ser razão válida para o elogio desta pobre súmula de poemas anti-qualquer coisa. Os quase dez euros que o livro custa (a mim, felizmente, ofereceram-mo) são pornográficos.
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quarta-feira, 28 de maio de 2008
Assírio
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quarta-feira, 7 de maio de 2008
O Romance da Múmia
Théophile GautierZéfiro
Théophile Gautier é praticamente desconhecido em Portugal.
Mas, este Romance da Múmia é uma obra em que não transparece essa vida excêntrica e extravagante. Pelo contrário, é uma obra-prima, reveladora de um cuidado extremo, de um trabalho extenuante e de um talento invulgar.
O Romance da Múmia não conta uma história, mas sim três histórias distintas, mas que se interligam.
Primeiramente, ficamos a conhecer o Lord Evandale que «era um desses jovens ingleses em tudo irrepreensíveis», que está acompanhado de Rumphius, um egiptólogo experiente, aos quais se junta Argynopoulos, um astuto grego empreiteiro de escavações que «se fizesse falta vendia novo por falta de velho». Os três realizam uma «descoberta inestimável»: um sarcófago riquíssimo, um sarcófago inviolado. Ao contrário das suas expectativas iniciais, não se trata da múmia de um homem, como seria de esperar, mas sim a de uma mulher: Tahoser. Tahoser subiu ao trono dos Faraós, governou o Egipto e sua biografia está inscrita num pergaminho que a acompanhou na sua última viagem…
Assim, a segunda história que esta obra nos conta é a de Tahoser; uma história de amor, do mais puro amor.
Bem ao estilo das obras clássicas, Tahoser é descrita como uma mulher belíssima, sem qualquer reparo, de feições e formas sublimes, e vivendo no mais absoluto luxo, rodeada de donzelas que a serviam e que satisfaziam todos os seus caprichos. Tahoser, filha do sacerdote Petamunoph, amava Poeri, um jovem israelita, e por ele cometeu os maiores despropósitos.
Contudo, o Faraó amava Tahoser. E o Faraó, habituado que estava a ter tudo aquilo que desejava, quis ter Tahoser a seu lado. Quando Tahoser finalmente conseguiu chegar ao coração de Poeri, ainda que dividindo o seu amor com Ra’hel, que o Faraó a resgatou e a obrigou a ficar a seu lado…
É nesta altura que Gautier decide (re)contar-nos outra história; a história de Mosché, isto é, de Moisés e da libertação e êxodo do povo hebreu do Egipto. Relembra-nos as peripécias que antecederam o êxodo: as águas ensanguentadas, as pragas e as mortes dos primogénitos, culminando na separação do «Mar das Algas»…
Escrita de uma forma irrepreensível, com discrições minuciosas, que revelam um estudo profundo das tradições egípcias, e com três histórias singelas e, em certa medida, absolutamente previsíveis, esta obra remete-nos para a mais pura Literatura, para o Grande Romance, em que mais importante do que contar uma história é a forma como esta é contada.
Sem dúvida, um clássico que fazia falta no nosso panorama editorial. Parabéns à Zéfiro!
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quarta-feira, 23 de abril de 2008
Intersecções
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quarta-feira, 16 de abril de 2008
A ceifeira
A biografia não passa de uma sequência de datas e acontecimentos. Separo as duas noções porque raramente coincidem. O autor nasce, vive (e casa-se ou não, morre-lhe alguém ou não, completa a universidade ou não); e morre. Mas se falamos de acontecimentos, falamos de outra coisa. Da obra. Por alguém morrer, o autor mergulha na depressão e muda completamente o seu estilo. Cresceu na sombra de uma mãe protectora: escreverá de determinado modo. A História sofre convulsões que lhe dificultam a vida: o autor contraria a História e cria contra ela.
Falando de biografia: os autores que morrem novos são sempre lamentados a dobrar. Porque a empatia gerada com o leitor simula uma familiariedade postiça, o leitor chora o autor que morre como se fosse um dos seus. Porque o autor desaparece demasiado cedo, cisma-se na obra que ficou por criar, sonha-se com uma arca cheia de inéditos que possam alimentar a fome que se segue ao desaparecimento, inventariam-se conjecturas sobre o rumo que a obra por criar poderia ter tomado.
O leitor precisa destas consolações na sua relação com os autores de quem gosta. Não aprecia o rigor do académico, capaz de analisar friamente a obra desligada da vida. A biografia não é apenas um conjunto de circunstâncias sem relação com os livros. Acabe-se com as datas; obtém-se o chão onde a obra germina, o intervalo no tempo delimitando a marca do escritor na terra.
Não carecemos de adivinhações sobre obras inacabadas. Mas não podemos recusar o apelo da intimidade forçada. Ao ler um livro, convidamos para junto de nós quem o escreve. Esperando que o arrependimento não surja. Mais do que podemos desejar na relação com os outros. Vantagens de uma existência de papel.
(Texto publicado originalmente no Auto-retrato)
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sexta-feira, 4 de abril de 2008
A arte de ver
Não é raro, ao ler um romance, darmos por nós a imaginar como seria aquela história adaptada para o ecrã, grande ou pequeno; mais justo para o escritor seria guardarmos aquela história e não pensar sequer em outro autor a refazer as palavras escritas.Um realizador trai sempre uma história, trai sempre as palavras do escritor. Há casos de adaptações feitas pelos próprios escritores, casos de escritores que se tornam realizadores. Marguerite Duras, Samuel Beckett, William Faulkner a trabalhar como argumentista de filmes que adaptavam obras de autores que, aparentemente, estavam nos antípodas da sua própria obra escrita, como Raymond Chandler (Big Sleep) ou Ernest Hemingway (To Have and To Have Not), tudo exemplos de gente ilustre que dedicou parte do seu tempo e dos seus esforços ao cinema. Mas é um facto aceite que os grandes filmes da história do cinema raramente nascem de grandes obras literárias; a linguagem cinematográfica funda-se em valores diferentes da linguagem literária. Quando um texto escrito é transformado em imagens, as perdas e os ganhos tornam o resultado final um objecto em tudo distante do original. Por razões estruturais - a existência de dois planos narrativos paralelos, o falado e o filmado - ou por razões que têm que ver com decisões do realizador, necessariamente diferentes das decisões do escritor, o filme nunca poderá traduzir fielmente tudo o que um romance diz. Será discutível afirmar que a riqueza da palavra escrita, que permite infinitas interpretações do texto, se sobrepõe à linearidade plana das imagens em movimento; as grandes obras cinematográficas são tão ricas em conteúdo e na forma como a melhor das obras de ficção escrita. Mas a verdade é que existe algo que as imagens nunca produzem: as aliterações, as metáforas, a maravilhosa riqueza linguística que um estilista da língua consegue produzir. O prazer do texto, de acordo com Roland Barthes, não nasce apenas da descodificação da palavra do autor; há grandes ideias que surgem como resultado do simples processo de ler um texto escrito de forma exemplar. E quanto mais complexo e denso é um texto mais ideias dele se podem extrair. Reduzir um romance ou um conto apenas à história que é contada é um erro em que não devemos incorrer.
Mas, é verdade, há quem escreva de uma forma cinematográfica. Será impossível alguma vez realizar um filme que se aproxime sequer do génio de Beckett, por exemplo, um autor que vive da força da linguagem. Ninguém conseguiu ainda fazer uma obra minimamente decente que adapte Kafka (apesar do esforço de Orson Welles em O Processo). Mas reinventar histórias medíocres, como Hitchcock fez tantas vezes, é um caminho fácil; e, ao mesmo tempo, espinhoso. O génio de Hitchcock reside na extraordinária expressividade dos pormenores puramente cinematográficos; as histórias eram um pretexto para a invenção, para a ostentação de uma mestria técnica invejável.
Mais recentemente, os irmãos Cohen fizeram o óbvio: adaptaram um texto que é quase um guião, Este País Não é Para Velhos. O estilo de McCarthy, seco, sincopado, com indicações de cena cinematográficas, presta-se a isto. Mas havia exemplos anteriores de romances de McCarthy tornados obras medianas, discretas; refiro-me a Belos Cavalos, realizado por Billy Bob Thornton em modo de completo desperdício: as paisagens, o deserto, a violência, tudo serviu para um filme que chega a ser um pastelão romântico.
A verdade é que o filme dos Cohen é uma obra-prima, por razões que vão muito além da riqueza do texto de McCarthy. A história é nada, tudo depende do olhar do cineasta. Os cenários imaginados partem sempre de um ponto interior, a imaginação do artista. E neste ponto, escritor e realizador aproximam-se: ambos criam imagens; o primeiro descobre-as através de palavras; o segundo persegue-as com uma câmara. Ramos divergentes da mesma árvore do conhecimento.
Nota: as imagens são de retiradas do filme de Alain Resnais que adapta um texto de Alain Robbe-Grillet, O Último Ano Em Marienbad. Um exemplo de uma adaptação que capta na totalidade uma ideia do texto. Como filmar a percepção individual do tempo.
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Sérgio Lavos
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