quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Vendas de livros online

Caríssimos Amigos,

Apesar do Arte de Ler ser um blogue de crítica literária, aproveito para partilhar convosco uma situação desagradável que se passou comigo.

Recentemente, fiz uma busca cibernáutica na esperança de encontrar um livro que está esgotado há muito tempo. Curiosamente encontrei um site de uma suposta livraria, ACVL (www.acvl.pt). Prontamente disponibilizaram, via e-mail, informação suplementar sobre os livros da mesma editora do livro que eu procurava, a entretanto extinta Hugin. De imediato efectuei uma encomenda e o respectivo pagamento via transferência bancária. No entanto, e após cerca de um mês e meio passado, com vários e-mails que enviei avisando da corrente situação, nunca me chegaram a responder nem a enviar o livro.

Como ninguém gosta de ser enganado, resolvi alertar publicamente para esta situação, na esperança que evite mais algumas burlas. O que estes tipos fazem é inadmissível e condenável.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Byblos


"Lisboa, 20 Nov (Lusa) - A Livraria Byblos, a maior do país, inaugurada há um ano em Lisboa, encontra-se hoje encerrada sem qualquer justificação aos clientes que se dirigirem às suas instalações, nas Amoreiras.
Aquela que foi "a primeira livraria inteligente", num investimento de quatro milhões de euros realizado pelo empresário Américo Areal, encontra-se hoje de portas fechadas e está a decorrer no interior uma reunião com os trabalhadores.
Fonte da empresa disse à Agência Lusa que os funcionários foram hoje informados do encerramento.
A Livraria Byblos, localizada num edifício nas Amoreiras, disponibilizava 150 mil títulos numa área de 3.300 metros quadrados, dispondo de um sofisticado sistema de identificação por radiofrequência, que o empresário chegou a destacar como "único no mundo".
Antes da inauguração, em Dezembro de 2007, Américo Areal, antigo dono das edições Asa, declarou que esperava facturar anualmente 10 milhões de euros e abrir mais três livrarias, no Porto, em Braga e em Faro.
NL.
Lusa/Fim"

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Salammbô /Gustave Flaubert

Este livro de Gustave Flaubert, apesar de não ser tão conhecido como Madame Bovary, foi para mim notável.
Mergulhar nas primeiras Guerras Púnicas em Cartahgo. As batalhas, os rituais, os cercos, as perseguições, a vida dos Bárbaros, a dos Cartagineses... Viver as personagens: Almicar Barca, Salammbô, Mâtho, Spendius, Aníbal...

Foi, a todos os niveis, fantástico...

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

A Verdade do Amor - António Telmo


Um livro onde "A Verdade do Amor" de António Telmo une-se à "Adoração" de Leonardo Coimbra.
Num tempo em que tendemos a viver demasiado depressa, deliciei-me maravilhado com este verdadeiro hino ao amor.
"Não faças caso, meu Amor, não faças caso de mim, não te quero para o meu egoísmo: olha o mundo e seus caminhos amargosos, e os pobres serão ricos e o cardo ressequido será açucena e cotovia, fonte a murmurar ternuras e Aurora a doirar os montes."

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

A Crítica...

"O escritor António Lobo Antunes, Prémio Camões 2007, disse ontem que o romance "A Vida Num Sopro", o último livro de José Rodrigues dos Santos, "é uma grande m...".
Citado pela agência Lusa, Lobo Antunes confessou durante um debate em Oeiras que fica "assombrado com pessoas que escrevem livros em dois meses", num país "onde todos são escritores". Referiu que ele é "lento", até porque não gosta de livros "fáceis (...), como as mulheres fáceis que nos piscam o olho".
Durante o colóquio, moderado pelo jornalista da TSF Carlos Vaz Marques, o autor de "Fado Alexandrino", sublinhou que lhe interessa falar das coisas "para as quais não existem palavras", porque a Literatura "é uma forma de pôr cá para fora as emoções".
Definindo-se como "um solitário", António Lobo Antunes revelou que trabalha actualmente 12 a 13 horas por dia numa garagem, por cima de um bar de alterne, na Rua Conde Redondo, em Lisboa, sem telemóvel e sem computador "e com o dinheiro nos bolsos como os ciganos"."
31.10.2008, in www.sapo.pt
Ainda não tive o prazer de ler estes dois autores, mas confesso, que após a leitura desta notícia, fiquei com curiosidade de ler os seus últimos livros.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Bomarzo/Manuel Mujica Lainez


O Renascimento não terá sido a época mais fascinante da História apenas porque a História não tem épocas fascinantes, é neutra e limita-se a ser a soma consecutiva dos dias. O nosso olhar, porém, não pode ser neutro; deveremos cultivar os nossos fascínios e pequenas manias, avaliar e valorizar os acontecimentos passados para, já se sabe, regularmos o presente da maneira mais sensata possível. O passado é a medida do presente e o exemplo para o futuro, no melhor dos mundos.
Esqueçamos portanto a objectividade. O interesse do Renascimento funda-se essencialmente no seu carácter de confluência de tempos: o fim da Idade Média e de uma sociedade largamente dominada pela Igreja Católica, a redescoberta da cultura clássica e a consequente revolução a todos os níveis: político, cultural, artístico. Não vale a pena dissertar muito sobre as razões do florescer renascentista, antes esclarecer que aquilo que somos agora, para o mal e para o bem, nasceu ali; o Humanismo, raiz de todo mal e todo o bem, é aquilo que melhor caracteriza a essência do Homem moderno.
E o mal, cinzento e baço, pulsava naquela época. É esse o tema de Bomarzo, de Manuel Mujica Lainez, a sua razão e a tensão invisível que dominou a vida (e a pós-vida) de Vicino, duque de Orsini, exemplo perfeito do homem capturado por este nó temporal, hesitando entre a violência cruel dos príncipes italianos e a beleza da arte. Retrato de um homem e espelho das contradições da península, o romance de Lainez, empurrando por um sopro épico romântico, tenta sobretudo entender as contradições da História. O corcunda Orsini, ilustre descendente de uma família de condottieri (homens de mão de príncipes), vê-se no improvável (as estrelas não o previam) papel de herdeiro da crueldade de uma época e patrono das artes novas, emergentes. A sua deficiência física é simbólica, claro, como se a corcunda ilustrasse o peso do orgulho familiar e debotasse a beleza que a alma de Orsini ostenta. O jardim mandado construir por ele, repleto de quimeras, monstros e aberrações da Natureza, é simultaneamente um exemplo da perfeição maneirista e galeria de pecados e atrocidades cometidas por Orsini em vida. 
O romance de Lainez é necessariamente um fresco de época, escrito num ritmo fluido, socorrendo-se de uma linguagem barroca que não é desvirtuada pela tradução elegante de Pedro Tamen. No futuro, Vicino olha para trás e tenta perceber que Homem terá sido, e ao fazê-lo explica ao leitor que época foi a vivida por ele. Como nos bons romances históricos, interessa menos a reconstituição e a investigação que foi feita (apesar de se notar que ela foi extensa e séria) e mais o capturar de um espírito, de um sentimento; que sentia quem viveu em tempos que admiramos e a que já não podemos aceder? O esforço de imaginação de Lainez é assombroso, mas não estéril; não há pirotecnias, apenas uma conservadora sobriedade, a melhor forma de representar um momento cristalizado da História.
Muitas vezes me lembrei de Obra ao Negro, de Marguerite Yourcenar, ao ler Bomarzo; como se Zenão, criado pela escritora francesa, fosse o reflexo invertido do duque de Orsini. Zenão, o humanista que se limita a observar e a registar a perversa natureza dos homens, e Vicino, que se deixa submergir pelo mal que o cerca. Quem poderá dizer que a História nada nos ensina, nada nos pode ensinar?

(Bomarzo, de Manuel Mujica Lainez, foi publicado pela Sextante).

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Um fio apenas

Não tenho dúvidas de que o amor que o Homem ganhou aos livros nasceu durante as noites passadas em cavernas escuras, contando histórias à volta de um fogo a apagar-se devagar, exorcizando espíritos e mortes e medos. O registo escrito é outra forma de uma história sobreviver. Mas é tão incerto como os contos passados de geração em geração, e deles sempre dependente. Os primeiros livros da civilização ocidental, a Ilíada e a Odisseia, são o testemunho de relatos anteriores, e grande parte da sua importância aí reside. Mas quem sabe o que se perdeu com a transcrição para a linguagem escrita? O exercício de distorção e construção que a transmissão oral permite perdeu-se com a fixação do texto, formatou o pensamento do leitor. Mas não fechou as portas ao espírito humano. Quase três mil anos depois, continua-se a escrever inúmeros livros que ainda tentam compreender na totalidade a mensagem transmitida nos textos homéricos. Mas estão tão longe (ou tão perto) como as interpretações que Aristóteles fez apenas duzentos anos depois. Cada novo tomo surgido apenas multiplica pontos de vista, contribui com mais um tijolo para o edifício que tem crescido a partir dos alicerces originais legados quem sabe por que escritor. Somemos agora apenas estes dois livros e os milhares que se seguiram em torno deles aos milhares que se escreveram e perderam, e reencontraram, ao conjunto de todas as obras importantes (esqueçamos aquelas que não merecem o estatuto de literatura) alguma vez escritas e obteremos aquilo que se pode assemelhar a uma biblioteca infinita, como a de Borges, uma biblioteca com corpo de cidade onde as ruas desembocam em espelhos que duplicam imagens dentro de espelhos, ruas sem sinais numa cidade sem mapa onde invariavelmente acabamos por nos perder. Algures, perdido neste labirinto de ruas, becos, avenidas, ainda temos o Homem que, à luz de uma fogueira que morre, tenta, com o esforço das palavras que ainda faltam, relatar a caçada me que quase foi caçado. E os outros que, presos no abismo das múltiplas figurações do mundo, o ouvem, mergulhando lentamente na História.

(Texto publicado antes no Arquivo Fantasma).

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O umbigo dos outros



Depois de um dos membros da Academia Sueca que atribui o Nobel da Literatura, Horace Engdahl, ter vindo a público referir-se à suposta menoridade da literatura norte-americana (ou, mais concretamente, estado-unidense), não se vislumbram hipóteses de prémio para Don DeLillo – repare-se, falo em DeLillo e não em Philip Roth, embora Thomas Pynchon também pudesse ser nomeado como próximo não-nobel americano.

Ora, eu achei piada às vistas curtas do senhor sueco, não por que não tenha razão – não tem – mas porque li, logo de seguida, uma ou outra indignação de admiradores de Roth e/ou pró-americanos empedernidos que disparam ao primeiro farejado odor de anti-americanismo. As vistas curtas do sr. Engdahl são prova de uma ou duas coisas, portanto: de que existe ideologia por trás das intenções do júri, se não sempre, muitas vezes; e, principalmente, que os membros se dão ao trabalho de realmente ler milhares de páginas produzidas por autores que não escrevem em inglês (duvido que leiam autores franceses, duvido até que eles não acreditem que a França terminou enquanto país quando Marguerite Yourcenar – que não recebeu o Nobel – morreu). Vamos lá ser sérios: partindo do princípio de que o Nobel é, de facto, o prémio mais importante que um escritor pode receber (e de que recebê-lo é essencial, para a obra ou para o autor), quantos de nós poderão dizer que este ou aquele escritor merece o prémio, em detrimento de outro? Porque a vida de um leitor, caros amigos, é uma vida falhada, em perda; por cada novo escritor que conhecemos (ainda que sejam largas dezenas por ano), há cem de que nunca iremos ouvir falar, seja pela inexistência de traduções em qualquer língua que entendamos, seja porque sim, porque escolhemos. São coisas óbvias, eu sei, mas a humildade impede-me de não as dizer de quando em vez. Queremos falar de gosto? Não me interessa, declaro que a subjectividade não me assusta. Mas antes que embarque na barcaça romba da retórica estéril, deixem-me que pegue num excerto (é sempre bom pegar num excerto) do tipo que escreve sobre literatura mais ideologicamente motivado que eu conheço (com o Alexandre Soares Silva muito perto, mordendo os calcanhares): João Pereira Coutinho, pela mão do Pedro Vieira: “e, segundo, porque o Nobel premeia escritores humanistas, ou seja, optimistas, que oferecem à academia sueca uma visão inspiradora, e muitas vezes sentimental, da natureza humana.” Não sei de que escritores fala ele, mas espero que não seja de Saramago, Dario Fo, Harold Pinter ou Joseph Brodski, caso contrário começo a duvidar do, até agora, impecável gosto do cronista, o que seria uma chatice, já que politicamente nunca me servirá uma chícara de chá que seja. Tudo para justificar o horror de não escolher o Roth, por ser americano. Mas Coutinho terá lido tudo o que os membros da Academia leram, todos os escritores humanistas e politicamente empenhados que concorrem entre eles para o premiozinho de uma vida? É esse o meu ponto.

A verdade é que a literatura dos E.U.A. é, quase sempre, “provinciana” e “fechada sobre si própria”. O problema é que o umbigo dos E.U.A. é de supremo interesse universal, e o olhar do mundo inteiro está definitivamente focado nele (ninguém sabia?); julgo que a isto se chama (com todo o despeito que merece) globalização cultural, mas posso estar errado. Toda a grande literatura americana é, antes de mais, um elogio do modo americano de viver; o grande romance americano, de Melville a Pynchon, de Thomas Wolfe a Philip Roth, tem características comuns que reflectem o espírito de uma nação e de um povo: os valores do individualismo, da demanda épica, da transcendência das origens, do combate a qualquer adversidade, a qualquer custo. E, lamento, João Pereira Coutinho, o principal impulso que conduz todos estes heróis americanos (Ahab, Eugene Gant, Sal Paradise, Nathan Zuckerman) é o humanismo. 

Nem Coutinho nem Engdahl. Os valores americanos são universais, as obsessões culturais que aparecem exaustivamente fetichizadas na literatura americana (o gosto pelos desportos autóctones – basebol, futebol americano, basquetebol -, a adoração de ícones do cinema, a paixão pela paisagem de fronteira e o Homem que por lá vagueia, etc.) são objecto de despudorado fascínio em qualquer lugar do planeta. Algum problema? Não.

E para quando Don DeLillo, o mais atípico (e, hélas, europeu) dos grandes escritores dos E.U.A.?

(Texto publicado também no Auto-retrato).

domingo, 5 de outubro de 2008

Amerika (a leitura inacabada) II


Fascinante acaba por ser o facto de Kafka nunca ter visitado a América. O país onde Karl desembarca é imaginário, uma construção baseada em relatos fragmentários de primos seus que visitaram o Novo Mundo, leituras de livros, e, acima de tudo, no desejo que Kafka tinha de criar uma história onde pudesse encaixar o seu modelo ficcional. (Se bem que a técnica de Kafka não se baseie num plano pré-estabelecido. Ele avança na escrita aos solavancos, sem uma linha narrativa prosseguida, condicionado pelos períodos depressivos que, regularmente, regressam à sua vida. Enquanto Fernando Pessoa, por exemplo, libertou a sua energia esquizofrénica fragmentando o ego em dezenas de heterónimos, Franz Kafka dirigiu - involuntariamente, parece-me - a tensão para o interior, criando histórias que descrevem um arco que, a cada volta, encerra mais a sua órbita, uma espiral que desemboca num ponto sem retorno, ou nem sequer termina, suspendendo-se na sua trajectória.) É completamente secundário, portanto, o facto de Kafka localizar Boston na outra margem do rio Hudson, em frente a Nova Iorque, ou falar de uma cidade, Ramses, que, na realidade, não existe. Os espaços, no escritor checo, são sobretudo mentais. Covis e calabouços, labirintos e torres a perder de vista, barcos apinhados e estradas que desembocam no vazio, quartos escuros com janelas a dar para um simulacro de vida inatingível. O horizonte aberto da América é uma imagem nunca vislumbrada por Karl.

sábado, 4 de outubro de 2008

Amerika (a leitura inacabada) I


Karl, de labirinto em labirinto, vai descobrindo o que de melhor a América tem para oferecer. Expulso do Paraíso, primeiro, expulso da terra dos homens, depois, Karl é conduzido por forças exteriores que não consegue (nem quer) controlar, até um fim que, sabemos nós, nunca será concretizado. O que Kafka pensara para Karl foi para sempre subtraído ao leitor, fiquemo-nos pelas conjecturas. Existe uma tal força na atitude passiva de Karl que, de modo algum poderemos ficar indiferentes ao avanço inexorável da sua trajectória sem direcção aparente. E no esforço de Karl sente-se também a vontade de contenção de Kafka, o seu rigoroso ofício de esconder contando tudo, esmiuçando pormenores e fazendo crer que aquilo que o leitor vê é a vida inteira de Karl, quando ele apenas se limita a ser um autómato cumprindo o programa conceptual do escritor. O mecanismo de produção de angústia que reproduz na perfeição a realidade exterior ao real do livro.

(A capa é antiga; e fabulosa. Mas a edição portuguesa é da Livros do Brasil, com o título mencionado, atribuido depois da morte de Kafka pelo amigo e editor Max Brod. A que li intitula-se O Desaparecido, e foi publicada pela Relógio d'Água).

domingo, 28 de setembro de 2008

Nunca me Deixes, Kazuo Ishiguro

Contornar o banal, a simplificação do pensamento, inventar novos modos de dizer o que antes já foi dito, pegar num tema e dar-lhe a volta, adaptar o tema à voz que já se possui - regras evidentes para a produção de um bom livro. Não é excessivamente importante a originalidade do material de base, pode ser até um constragimento para a prossecução da obra; o autor acaba por investir grande parte do seu esforço naquela ideia inicial absolutamente original e pode desleixar-se no aprimoramento da forma. Uma das maiores fragilidades da Ficção Científica, por exemplo.

Em Nunca me Deixes, Ishiguro enveredou por caminhos estranhos ao seu universo criativo, poder-se-ia ter pensado. Mas de rompante somos confrontados logo nas primeiras páginas com todas as marcas de autor a que estamos habituados. O lento desenrolar dos acontecimentos acaba por confirmar a impressão inicial. A mestria do escritor inglês revela-se no uso de um estilo que finge ser desinteressado, afastado da pomposidade barroca dos primeiros livros, como Os Despojos do Dia, mas que não deixa de ser depurado de forma densa e nervosa, obsessivamente concentrado nos pormenores da narrativa: gestos, olhares, mínimas alterações de voz, o captar de memórias que remetem de imediato para o tempo presente. E o tempo, neste romance, é essencial. A narrativa é um extenso flashback, um salto em direcção ao passado idílico de Kathy, o narrador, realizado com um primeiro objectivo: reunir tudo que foi dito, tudo o que aconteceu que na altura parecia destituído de sentido, e reconstituir uma linha coerente que concorresse para o desfecho que é pressentido nas primeiras páginas, o fim de Kathy como "Carer". Mas este flashback, pontualmente interrompido por outras prolepses e analepses, pretende ser também outra coisa: o resgate de uma infância que passou rapidamente pela vida de Cathy, Tommy e Ruth. A amizade que unia os três, como nasceu, cresceu e se alimentou das suas forças e das suas fragilidades, das peculiariedades e imperfeições que, noutro lugar, os poderiam afastar.

Atribuindo sentido a essa infância perdida, Ishiguro acaba por compor de forma subtil, mas resoluta, personagens de corpo inteiro, dotadas de uma espessura que, ao invés de as elevar acima do comum dos mortais, as coloca a um nível próximo do leitor, quase palpável.

Não querendo adiantar muito mais sobre o enredo do livro, acrescento que a humanidade que ressume da vida quase trágica (e escrevo quase porque a serenidade com que as personagens aceitam o seu destino é desarmante) de Kathy, Tommy e Ruth, é o nó que acaba por ser desatado no final, o que de modo irreversível me colocou de um lado da discussão ética que o tema do livro levanta. E obras assim, que se dirigem directamente ao entendimento do leitor, o questionam sem pudor, são raras.

Nunca me Deixes, Kazuo Ishiguro, Gradiva, 2006

(Este texto e o anterior são versões ligeiramente diferentes dos originais publicados no Arquivo Fantasma).

sábado, 27 de setembro de 2008

Nunca me Deixes, Kazuo Ishiguro

Gosto quando um escritor consegue transportar-me num enlevo desdobrado de estranheza, território desconhecido, e íntima familiaridade. Deixa as migalhas para eu ir apanhando, ir-me entretendo enquanto a rede não é lançada; falo dos pormenores, os indícios, as palavras com duplo sentido, as setas em direcção a caminhos que podem ou não conduzir a algum lugar cartografado. Ora, Ishiguro consegue deixar-me sempre na dúvida. Ao ponto de ter inculcado em mim a descrença no discurso do narrador, como aconteceu no seu penúltimo livro, Quando Éramos Orfãos
Em Nunca Me Deixes , a estratégia é semelhante. Estou a ser conduzido pela voz de Kathy, improvável clone fornecedor de órgãos que vai desfiando recordações de um tempo em que o futuro ainda parecia longínquo. O enredo parece material para um livro de FC, mas isso é uma falsa questão. As preocupações de Ishiguro são outras. Um romance de aprendizagem, sem dúvida, no qual velhos problemas são equacionados num mundo que parece ligeiramente descentrado, paralelo e tangente ao mundo onde habita o autor do romance. Dados empíricos recolhidos em obras anteriores prolongam a minha desconfiança no relato do narrador, mas admito que este facto acentua o deslumbramento. Aguardo portanto um desfecho tão intricado como o labirinto por onde agora ando.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Tempo II (Austerlitz, W. G. Sebald)

De seguida, Austerlitz prossegue na sua digressão, desenvolvendo uma exposição que complementa o que anteriormente é sugerido. Fala do tempo e das formas que ele assume, das suas distorções e dos alicerces artificiais que o suportam. A mais assombrosa das invenções humanas, o logro mais perfeito de que nos poderíamos lembrar. Talvez fosse desnecessário complementar a mensagem, mas uma das características decisivas na obra de W. G. Sebald é a prolixidade de Austerlitz. O narrador limita-se a ouvir o que o outro diz, ou assim Sebald quer fazer crer ao leitor. Podemos facilmente imaginar que o discurso de Austerlitz seja entrecortado por observações do narrador que, em benefício da economia da narrativa e do objectivo maior da obra, são habilmente suprimidas. Sabemos das acções do narrador, pouco conhecemos das suas reacções às ideias de Austerlitz. Mas falo do que não existe, admito. A literatura que habita fora da obra, a marca fundamental dos grandes romances. Outro autor que recorre a este tipo de narrador que se coloca num plano exterior é Philip Roth. Os seus vários alter-egos ouvem muito e opinam pouco, são meros contadores das histórias que acontecem fora da sua vida. Sucede assim em Pastoral Americana, onde o sueco Levov é elevado à categoria de derradeiro herói americano, personagem frágil e ultrapassada, como o é também um certo modo de vida americano em processo de desaparecimento. De volta a Austerlitz, percebemos que aquilo que reforça a faceta trágica da personagem que dá nome ao romance é a sua expulsão do arco imparável do tempo. Ele pertence às memórias que persegue ferozmente, às ruínas por onde caminha em busca de uma identidade que ele sabe que nunca conseguirá resgatar. Filho de judeus engolidos pela máquina de destruição do Holocausto, adoptado por pais ingleses que não lhe quiseram revelar a origem, ele permanece, décadas após a descoberta da terrível verdade, apátrida e desterritorializado, sombra deambulando entre sombras. Quem existe situa-se fora deste mundo, o narrador que se limita a efabular sobre uma história de espectros.

domingo, 21 de setembro de 2008

Tempo (Austerlitz, de W. G. Sebald)

A certa altura, o narrador e Austerlitz iniciam um passeio ao longo da margem do Tamisa, pela área de Docklands em direcção ao túnel que atravessa por baixo o rio e desemboca em Greenwich. Cruzam o parque e entram no Observatório Real, deambulam pelas salas, observando os instrumentos do tempo que ali estão expostos. Ao ler esta passagem, lembrei-me de um dos percursos que encetei aquando da minha primeira visita a Londres, semelhante em muitos pormenores ao descrito no livro. Mas a coincidência fica-se por aí, pelos lugares físicos que se repetem; os espaços mentais são radicalmente diferentes. O Observatório Real, conhecido por qualquer turista por causa do meridiano que toma o nome do bairro e do parque, reina sobre a colina que sobe desde o rio, emprestando ao conjunto uma atmosfera romântica, particularmente bela em dias de nevoeiro. Foi num destes dias que visitei o jardim, mas nem sequer entrei no edifício que alberga o museu devotado ao tempo e à observação astronómica. Austerlitz e o narrador entram, passeiam pelos corredores e salas, e ao fim de algum tempo retomam o diálogo - quase monólogo - que tinham interrompido antes da curta jornada em direcção a Greenwich. As salas estão praticamente vazias, à excepção de um turista japonês que, talvez por engano, entra na sala de observação onde os dois se encontram depois de terem visitado separadamente o museu. Rapidamente desaparece, e os dois reiniciam a conversa. No lugar onde o tempo se assume em várias camadas de realidade, eles recordam. 
O propósito de Sebald é servido na perfeição; eu, daqui de um futuro lendo e recordando as salas por onde nunca caminhei, compreendo as artimanhas do tempo. O tempo que transforma o mundo, tornando-o mais lento e pausado. As escolhas mudam. O que me interessava aos vinte anos pouco tem a ver com o que me interessa agora. E o dispositivo montado por Sebald acaba por trazer à contenda outro livro, A Invenção de Morel, onde passado e presente coexistem de forma harmoniosa. Será talvez demasiado óbvia a literalidade da história de Bioy Casares: a coexistência de tempos resulta do funcionamento da mais importante das faculdades, a memória. Em Austerlitz, tudo acontece em função deste maravilhoso dispositivo que nos distingue do resto do reino animal. Mas qualquer dom tem o seu reverso, a maldição que o acompanha; a maldição de recordar é a aguda consciência da passagem do tempo. Os objectos do passado que Austerlitz e o narrador observam são, simultaneamente, testemunho da capacidade decisiva de invenção do ser humano e símbolo da inutilidade de tudo. Tempo nunca reencontrado.

(Texto publicado em tempos no Arquivo Fantasma, com uma ou outra coisa diferente)

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Deaf Sentence


Depois da aproximação ficcional à vida de Henry James em Autor, Autor, o regresso de David Lodge aos romances é um reconhecimento de temas e obsessões antigos. Não que Autor, Autor não fizesse sentido em Lodge, tendo em conta o seu percurso académico e a obra ensaística, sempre empenhados em descobrir os caminhos que se foram desbravando entre modernidade e pós-modernidade; Henry James acaba por ser um dos escritores que fabricaram a ponte entre dois tempos, com o seu apurado estilo de pendor classicista e a sua atenção a temas contemporâneos, muitas vezes polémicos, que por uma ou outra razão continuam a ser actuais.

Em Deaf Sentence, acompanhamos um período de vários meses na vida de Desmond Bates, professor de Linguística a gozar os prazeres da reforma, académico conservador sofrendo as contrariedades da velhice: o fantasma da impotência sexual, a decadência do corpo, a surdez. A velhice, em Lodge, apenas poderia ser retratada como uma farsa, nunca como tragédia. Desmond é surdo, e a situação apenas pode piorar. O seu pai, também surdo, vai tombando progressivamente na senilidade, por entre ataques de casmurrice e aflitivos episódios de amnésia. A sua mulher, por seu lado, tem um negócio que segue de vento em popa e uma vida social mais activa do que nunca. Os filhos vivem longe e levam vidas que ele não quer compreender na totalidade. E para cúmulo acaba por conhecer uma estudante americana de doutoramento que agressivamente se introduz na sua vida simples como um insidioso cancro. A velhice, para Desmond, não é uma sentença de morte, mas a surdez acaba por ser. (A dedicatória de Lodge aos tradutores justifica-se; não se imagina qual possa ser a tradução em português de Deaf Sentence, por isso boa sorte ao sofredor a que calhar esta tarefa.) O que se segue é um calvário de privações devidamente registado em forma de diário, com uma ou outra incursão pela ficção, em jeito de exercício de escrita criativa ensaiado pelo professor Bates – o narrador.

Na verdade, o livro não é (apenas) esta história. Como sempre em Lodge, o material narrativo é um pretexto para pensar a narratividade e a ficção enquanto construção artificial de uma realidade. O narrador do livro nunca é o autor, apesar das coincidências biográficas entre os dois; e quando a narrativa salta para a terceira pessoa, o leitor começa a perceber o artifício em toda a sua plenitude. Mas o brilhantismo de Lodge é conseguir pensar a literatura, divertindo. Leitura fácil, calorosa, sustentada parágrafo sim, parágrafo não, pelo humor britânico que o leitor habitual identifica: aquela maneira de tornar o ridiculo digno tanto de pena como de simpatia; as personagens criadas por Lodge, muitas vezes académicos pomposos e sexualmente inoperantes, homens em fatos cinzentos que sonham com a saia mais curta da mulher do colega da faculdade (como acontece em A Troca e O Mundo é Pequeno), transformam-se em heróis reticentes da idade moderna.

Imaginamos que possuir todas as ferramentas teóricas para poder detectar cirurgicamente as estratégias de um romancista seja uma vantagem injusta; Lodge sabe muito bem que mecanismos um escritor usa para criar vida e torná-la interessante para o leitor. Contudo, imaginamos também que o passo entre teoria e prática seja tão difícil de dar como sobreviver como um surdo num mundo repleto de sons. Lodge consegue desenvencilhar-se melhor da tarefa do que o seu pobre protagonista. E é sempre um prazer reencontrar velhos amigos.

(A edição inglesa é da Harvill Secker; por enquanto, não há informação sobre uma edição portuguesa; espera-se que a deglutição da editora Asa pelo grupo Leya não acabe com velhos hábitos, e ele continue a ser fielmente traduzido por cá) 

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