quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O Cavaleiro da Ilha do Corvo

Joaquim Fernandes

Círculo de Leitores / Temas e Debates

Dá-se o caso de entretanto ter lido O Cavaleiro da Ilha do Corvo de Joaquim Fernandes.

Confesso que não estava nos meus planos fazê-lo, mas o Amigo João Caraça, entusiasmado essencialmente com os erros que a obra apresenta, perguntou-me se já o tinha lido e, ao ter respondido que não, decidi nesse momento que o iria fazer. Desta forma, num próximo reencontro estaria munido de argumentos para mais uma prazenteira troca de impressões com o eminente cientista português.

Primeiramente, pensei que não iria gostar do livro devido à forma, isto é, ao estilo da escrita. Contudo, não se pode dizer que o livro esteja mal escrito. Apesar de se tratar do primeiro romance do autor, nota-se que domina já algumas técnicas básicas do género ficcional e o livro até se lê bem.

Claro está que a colagem ao ainda famoso Código da Vinci é evidente – O Cavaleiro da Ilha do Corvo é uma tentativa descarada de fazer um Código da Vinci à portuguesa. As semelhanças são indiscutíveis: um “casal” de protagonistas, sendo que o personagem masculino é também um professor universitário; uma “sociedade secreta” que procura a todo o custo que não se conheça a “verdade”; um sábio idoso, auxiliado por um mordomo, mas que desta feita não é o “mau da fita”; aventuras e peripécias várias ao longo do livro, mas num estilo muito mais “pausado” quando comparado com o Código.

Mas, tal como no Código da Vinci, também aqui estamos na presença de uma conjectura que não chega a teorema. Isto é, por muitas voltas que o autor dê, por muitas ideias que apresente e por muito que se esforce para que tudo faça sentido, o certo é que as bases são pouco sólidas. Essencialmente, o romance anda à volta de uma hipotética estátua encontrada pelos navegadores portugueses na Ilha do Corvo, decorria o reinado de D. Manuel I e que, juntamente com outros achados, provaria que as ilhas haviam sido descobertas muitos séculos antes dos navegadores portugueses. A descrição desta estátua é feita por Damião de Góis, o que, para o autor, é suficiente como garantia de veracidade. Ou seja, Damião de Góis é, para o autor, uma fonte autorizada e irrefutável. Contudo, e apesar de termos em grande conta o prestigiado humanista português, temos de relembrar que é o mesmo Damião de Góis que dedica várias linhas na sua Descrição da Cidade de Lisboa à existência de tritões, nereidas e sereias nas águas limítrofes à cidade. Apesar de não emitir qualquer parecer, é evidente, pela leitura das suas palavras, que não descarta a hipótese e até, pelo contrário, dá a entender que acredita na existência desses míticos seres. Assim, poderíamos dizer que a acreditar em tudo o que Damião de Góis escreveu, deveríamos também acreditar na existência de tritões, nereidas e sereias nas águas e grutas da costa portuguesa…

Mas não é só neste aspecto que o livro é pouco consistente; alguns erros grosseiros, como aquele que o nosso Amigo João Caraça nos realçou, que o autor confunde meridianos com paralelos, fazem com que o livro perca alguma da credibilidade.

Ainda assim, trata-se de um livro que satisfaz bastante, enquanto obra de ficção, pois tem um enredo bem encadeado e cativante.

Contudo, como dissemos acima, a conjectura não passa a teorema. Se fosse esse o caso, o autor teria escrito um ensaio e não uma obra de ficção. Este livro padece da mesma enfermidade do Código da Vinci – pretende apresentar uma teoria nova, escondida pelas entidades e instituições instaladas e que pode revolucionar a forma como vemos o Mundo, mas não passa de teoria com demasiadas falhas para ser aceite unanimemente.

2 comentários:

Theresa Castello Branco disse...

Luís Carlos Silva. Interessou-me muito a sua critica ao livro “O cavaleiro da Ilha do Corvo” de Joaquim Fernandes, e a resposta do autor, e resolvi comentar a questão principal que os dois textos levantam: a saber se os problemas de um caso histórico controverso, ou misterioso, ou desconhecido, devem ser apresentados – e defendidos, ou rejeitados - por via de um ensaio – possivelmente massador - ou se é fazível, e talvez até melhor, apresentá-los por meio de uma obra de ficção – coisa supostamente menos massadora.
O prof. Joaquim Fernandes optou pelo romance, e, segundo leio, seguiu na sua estrutura os moldes de Dan Brown no Códice Da Vinci. À crítica de Carlos Luís Silva a esse respeito, responde o dito autor, que o objectivo do seu Cavaleiro da Ilha do Corvo não fora “produzir obra-prima ficcional, mas sim colocar à disposição dos leitores, pela primeira vez sobre a matéria, um painel documental documentado sobre a hipótese da verosimilhança da polémica estátua corvina.” Sendo, escreve ele – “antes de mais historiador” - procurara “atestar essa competência na confortável bibliografia, reunida ao longo de mais uma década, com intermitências, e exposta no final da obra.”
Ou seja, o romance não interessava como obra de ficção, existia apenas para apresentar uma teoria e a vasta bibliografia em que esta se apoiava. Com outras palavras: Joaquim Fernandes, preferira usar a vasta bibliografia que juntara sobre a estátua pré-Descobrimentos de um cavaleiro na Ilha do Corvo, para escrever uma obra de ficção - na qual a bibliografia não se exige – de preferência a usar esta em trabalho de análise histórica, onde seria indicada e exigível.
Ora, se Joaquim Fernandes está razoavelmente convencido que há provas de ter existido na Ilha do Corvo a estátua de um cavaleiro, que data de muitos anos antes das descobertas portuguesas, então o assunto é de interesse histórico, e parece-me que devia ter sido tratado primeiro em ensaio, ou pequeno estudo, com argumentos bem documentados, quite a ser depois usado de outra forma, de ser o pano de fundo de um romance detectivesco ou histórico, por exemplo.
É evidente que a modalidade “ficção” chegava, se o objectivo do livro era somente o de dar a conhecer a existência de uma misteriosa estátua. E se a existência da misteriosa estátua é só um dos muitos casos misteriosos que abundam na tradição de todos os países e regiões, uma obra de ficção também é perfeitamente adequada para tratar do problema.
A decisão sobre o modo de apresentação de uma teoria revela muito do que o autor pensa da mesma. Optando pela ficção, o autor prova indirectamente que não tem grande confiança na sua teoria.
Luís Carlos Silva escreve a esse respeito, que no livro de Joaquim Fernandes, se está, tal como no Código da Vinci, “na presença de uma conjectura que não chega a teorema”. E mais adiante “Se fosse esse o caso, o autor teria escrito um ensaio e não uma obra de ficção.........mas não passa de teoria com demasiadas falhas para ser aceite unanimemente”.
Só não concordo com a exigência de um teorema. A História não é Matemática. Ninguém duvida da existência da batalha de Aljubarrota, apesar de não haver unanimidade quanto ao local exacto onde se deu. O mesmo se pode dizer da batalha que há dois mil anos dizimou as legiões de Varus e mudou para sempre a geografia política da Europa. O local exacto da batalha continua a ser debatido, mas ninguém duvida que houve essa batalha.
De resto, não é pelo facto da sua teoria não se poder provar matematicamente, que peca o livro de Dan Brown. Peca por ser mal escrito, e dar provas de um confrangedor desconhecimento de modos europeus. Não se espera dum romance detectivesco acerca de um problema histórico, que o livro nos venha a dar provas convincentes de uma qualquer teoria. Aliás, creio ter lido que Dan Brown escreveu o Da Vinci Code seguindo conselhos que lhe deram para conseguir um bestseller. Não o escreveu por estar convicto de que a sua teoria estava certa, e para a defender com paixão de historiador. E é por isso que espanta quando um historiador – esse, sim, decerto apaixonado pela sua teoria - opta por basear a apresentação dela em forma de romance do tipo da obra de Dan Brown.

Unknown disse...
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